Com o coração profundamente comovido e transbordando de gratidão ao Pai Celeste, saúdo todos os fiéis, sacerdotes, religiosos e cidadãos de boa vontade de nossa querida Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Vivemos, nestes dias abençoados, de 8 a 12 de julho de 2026, um momento de singular importância eclesial, espiritual e comunitária.
A imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, vinda diretamente de seu santuário em Belém do Pará, visita a nossa Cidade Maravilhosa, trazendo consigo o perfume da devoção mariana mais profunda e o testemunho vivo de um povo que caminha sob a proteção e o olhar intercessor da Mãe de Deus.
O tema que nos rege e inspira ao longo desta jornada — “Maria, missionária que nos dá Jesus” — sintetiza com perfeição a essência do mistério que celebramos: Maria não retém para si as honras, mas coloca-se em percurso, atravessa fronteiras geográficas e culturais para nos entregar a riqueza maior, que é o seu próprio Filho, Nosso Senhor.
Além disso, também nos encoraja neste ano especial que dedicamos ao incremento das comissões missionárias e das missões populares em nossa Arquidiocese, que culminará, em outubro, com o centenário do Dia Mundial das Missões e com missões em todas as paróquias de nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Acolher a Virgem de Nazaré em solo carioca é, para este arcebispo, um acontecimento que toca as fibras mais íntimas de minha trajetória pastoral e pessoal. Antes de ser chamado pelo Santo Padre para assumir o governo desta amada Igreja Particular do Rio de Janeiro, tive a imensa honra e a graça inestimável de servir como arcebispo de Belém do Pará, entre os anos de 2004 e 2009. Foi nas terras paraenses, no coração da Amazônia brasileira, que pude testemunhar de perto a grandiosidade e o impacto avassalador do Círio de Nazaré.
Trata-se de uma das maiores manifestações de fé do planeta, um verdadeiro fenômeno humano e teológico que desafia explicações puramente sociológicas. Ver mais de dois milhões de almas reunidas em uma única manhã de domingo, caminhando lado a lado sob o calor intenso, disputando um espaço na corda que puxa a berlinda, é uma experiência que transforma a visão de qualquer pastor sobre a piedade popular.
O Círio de Nazaré não é apenas uma grande procissão; ele é a própria manifestação da identidade e da alma orante do povo brasileiro. Ali, a fé se faz carne, suor, lágrima e canto. É um espetáculo de solidariedade, onde o desconhecido oferece água ao irmão que fraqueja, onde as famílias abrem as portas de suas casas para acolher os romeiros vindos de longe e onde a promessa cumprida se transforma em uma ação de graças coletiva.
Lembro-me com viva emoção do silêncio sagrado que se mistura aos gritos de “Viva Nossa Senhora de Nazaré!”, do toque dos sinos e do choro incontido de homens, mulheres e crianças que encontram nos olhos da pequenina imagem a certeza do colo materno. O Círio nos ensina que a fé do nosso povo é resiliente, comunitária e profundamente encarnada nas dores e alegrias do cotidiano. É essa mesma força espiritual, essa torrente de esperança e devoção, que desejamos ver frutificar e renovar o coração do Rio de Janeiro por meio desta histórica visita peregrina.
Esta passagem da imagem peregrina possui também um caráter profético e preparatório de suma relevância para a nossa Igreja local. Ela serve como um farol e um forte impulso para o Círio de Nazaré da Arquidiocese do Rio, planejado para este ano de 2026. Queremos que a semente dessa devoção tão fraterna e missionária crie raízes profundas em nossas comunidades, paróquias, capelas e periferias.
Ao percorrer as diferentes regiões de nossa metrópole, a Virgem Santíssima nos convida a redescobrir a beleza de sermos uma Igreja em saída, uma Igreja que não teme ir ao encontro das realidades mais difíceis e desafiadoras, levando a paz, a reconciliação e a justiça que emanam do Evangelho de Cristo.
A programação traçada para estes quatro dias reflete a nossa intenção de fazer com que a presença de Maria toque a pluralidade da nossa vida arquidiocesana, desde os centros de decisão e poder até as comunidades mais carentes, passando por hospitais, colégios e espaços de cultura popular. Cada parada, cada celebração é um elo de uma corrente contínua de oração e louvor.
Na chegada, no primeiro dia, as visitas foram internas em nosso Edifício São João Paulo II, sede da Mitra Arquiepiscopal. A parte pública iniciou-se na quinta-feira, dia 9 de julho, no Santuário Cristo Redentor. Do alto do Corcovado, com a imagem da Mãe aos pés do Filho de braços abertos, realizamos a solene bênção sobre toda a cidade do Rio de Janeiro. Dali, contemplando as belezas naturais e os imensos desafios sociais de nossa terra, pedimos que Maria interceda por dias de mais paz, segurança e dignidade para o nosso povo. Em seguida, dirigimo-nos à Cripta da Catedral Metropolitana de São Sebastião, no Centro, onde celebramos a Santa Missa em sufrágio pela alma de meu venerando predecessor, o Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, por ocasião dos 14 anos de seu falecimento. A imagem também esteve em visita ao III Comando Aéreo Regional (III COMAR), no Centro; à Arena Bangu, ao lado da Capela Nossa Senhora de Nazaré, no Shopping Bangu; às capelas de Realengo e Camorim, culminando com a Missa no Santuário São João Batista, no Anil.
A sexta-feira, 10 de julho, foi marcada pelo encontro da imagem peregrina com as diversas realidades urbanas e sociais do Rio: Paróquia São Paulo Apóstolo, em Copacabana; Paróquia Nossa Senhora da Esperança, em Botafogo; Educandário Nossa Senhora de Nazaré, no Catumbi; e Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Ramos. Houve também o Mini-Círio no Complexo da Maré, com concentração na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, em Bonsucesso, e conclusão com a Santa Missa na Paróquia Jesus de Nazaré, onde as ruas da Maré transformaram-se em um imenso santuário.
O sábado, 11 de julho, reservou-nos momentos de profunda comunhão eclesial e manifestação cultural: Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, no Catete; Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha, na Penha; e Colégio Pio XI, em Ramos, durante o Encontro dos Coroinhas do Vicariato Leopoldina. Houve ainda os sucessivos Mini-Círios: um saindo do Sesc Ramos em direção à quadra da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, e outro partindo do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla até a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré e Santos Mártires Ugandenses, em Acari. O dia encerrou-se com Missa e vigília na Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, em Anchieta.
Neste domingo, 12 de julho, teremos a conclusão da peregrinação com uma profunda ação de graças. Às 8h30, haverá Santa Missa no Santuário e Basílica de São Sebastião, na Tijuca, seguida de visita à Capela Nossa Senhora de Nazaré, na Ilha do Governador, e, por fim, às 13h, celebração no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, na Feira de São Cristóvão.
Ao contemplarmos a passagem da Virgem de Nazaré por nossa Arquidiocese, não podemos permitir que este evento seja apenas uma lembrança passageira ou uma mera emoção estética. A visita da Mãe é sempre um convite urgente à conversão pessoal e pastoral. Ela, que foi a primeira discípula e missionária do Pai, ensina-nos que a nossa Igreja precisa ser cada vez mais acolhedora, samaritana e profética. O exemplo do Círio de Belém, que agora buscamos viver e adaptar à nossa realidade carioca, lembra-nos de que a nossa força reside na unidade e na capacidade de caminhar juntos — uma verdadeira sinodalidade vivida na prática, na oração e no serviço aos mais necessitados.
Que o fruto desta peregrinação se traduza em comunidades mais engajadas no anúncio do Evangelho, em famílias fortalecidas na fé e no amor mútuo e em uma sociedade que lute incansavelmente pela promoção da dignidade humana e pela superação de todas as formas de violência e exclusão. Que as paróquias e capelas que trazem o doce título de Nazaré continuem a ser centros de irradiação desta espiritualidade mariana que cura, liberta e une.
A ti, ó Virgem de Nazaré, Rainha da Amazônia e Mãe de todos os brasileiros, confiamos o presente e o futuro de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Intercede por nós junto ao teu Filho Jesus, para que sejamos testemunhas corajosas da ressurreição e construtores do Reino de Deus em meio às realidades deste mundo. Guarda a nossa juventude, conforta os nossos idosos, cura os nossos enfermos e abençoa o trabalho de cada trabalhador e trabalhadora desta nossa amada cidade.
Sob o teu manto sagrado, caminhamos firmes, alegres e convictos na esperança!
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ