Dom Estêvão Bettencourt, OSB., que teve a abertura do processo de beatificação anunciada, recebeu ao nascer, no Rio de Janeiro, no dia 16 de setembro de 1919, o nome de Flávio Tavares Bettencourt, filho de Antônio de Souza Bettencourt e Maria Tavares Bettencourt. Ele foi batizado na Matriz de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, no dia 9 de novembro do mesmo ano e fez sua Primeira Comunhão no dia 15 de agosto de 1930, na Capela do Colégio das Irmãs de Sion, no Cosme Velho.
Tendo feito o antigo “curso ginasial” no Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, conviveu ali com grandes monges e, assim, foi brotando sua vocação monástica. No dia 1º de fevereiro de 1936, ingressou no mosteiro e, tendo recebido, no dia 6 de outubro do mesmo ano, das mãos do então abade Dom Tomás Keller, o hábito monástico, foi-lhe dado o nome de Estêvão, o protomártir (cf. At 7,59), em virtude de sua devoção aos mártires da Igreja primitiva.
Sempre dedicado aos estudos, Dom Estêvão foi enviado a Roma, onde permaneceu de 1937 a 1945. Fez o doutorado no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, com tese sobre a “Doutrina Ascética de Orígenes de Alexandria”. Sua profissão monástica solene foi feita em 7 de novembro de 1940, em Monte Cassino. O diaconato ele recebeu em 12 de julho de 1942, na Basílica Santo Antônio de Pádua, em Roma, e sua ordenação presbiteral deu-se na Igreja de Santa Inês, grande mártir amada pelos romanos, na Piazza Navona, no dia 18 de julho de 1943.
Dom Estêvão não se contentou somente com o doutorado em Santo Anselmo. Frequentou, também, o Pontifício Instituto Bíblico e, retornando ao Brasil em 1945, completou aqui mesmo seus estudos de Sagrada Escritura com um seminário sobre a Sabedoria Personificada no Antigo Testamento, com a orientação do abade Dom Tomás Keller e as devidas dispensas do então reitor do Pontifício Instituto Bíblico.
Dom Estêvão passou a dedicar-se, então, com muito esmero, ao ensino da Sagrada Teologia, de modo particular na Escola Teológica da Congregação Beneditina do Brasil e, mais tarde, em tantos outros organismos educacionais de nossa Arquidiocese, de modo particular do Seminário Arquidiocesano de São José (Instituto Superior de Teologia e Faculdade Eclesiástica de Filosofia João Paulo II).
A Escola de Fé Mater Ecclesiae e Luz e Vida, fundada em 1964/1965 pelo também ilustre Dom Cirilo Folch Gomes, OSB, teve sua continuidade graças ao trabalho incansável de Dom Estêvão (contamos a fundação a partir de 1965, por conta dos reais inícios dos trabalhos). Quando assumiu sua direção, na década de 80, ele criou os cursos por correspondência. Hoje, a escola conta com 21 livros que versam sobre os diversos tratados da Teologia e mais três dedicados exclusivamente ao estudo da Sagrada Escritura (24, ao todo). Além disso, Dom Estêvão compôs 66 opúsculos, tratando de diversos temas, na sua maioria de apologética, procurando esclarecer a fé e torná-la acessível a todos.
Não poderíamos deixar de citar, embora nem de longe tenhamos sido exaustivos, seus inúmeros artigos na revista Pergunte e Responderemos. Em alguns deles, podemos sentir a profundidade espiritual deste grande homem de Deus. Em 1973, ele escreveu essa belíssima passagem sobre a oração: “A oração será sempre o primeiro e o último dos recursos aplicados pelo cristão em qualquer situação da vida; às vezes, as graves tribulações vêm a ser o impulso salutar que desperta o homem indiferente e autossuficiente para que se dirija ao Pai do céu; a tribulação pode ser, para o cristão, o momento de refazer a sua escala de valores e colocar em primeiro plano alguns deles que estejam esquecidos.”
Mais tarde, quase como já entrevendo, na altura dos seus 71 anos, algumas nesgas da vida eterna, escreveu: “…com o olhar mais perspicaz ou liberto do colorido das metas terrestres ou imediatas, o ancião tem o coração mais livre para considerar os valores definitivos e encaminhar-se para eles sem tantos entraves…”
Sua páscoa se deu no dia 14 de abril de 2008, deixando uma grande saudade no coração de muitos dos seus alunos, ouvintes, leitores, admiradores, irmãos de caminhada. Na sede das Escolas de Fé Mater Ecclesiae, guarda-se uma lembrança que registra um dos seus últimos conselhos: “Guarde sua paz, entregue-se a Jesus. Continue a estudar e trabalhar firme. Não se preocupe com o passado, olhe o presente e o futuro com absoluta confiança em Deus.”
Dom Estêvão foi um verdadeiro filho de São Bento que soube “nada antepor ao amor de Cristo”. Que o seu exemplo nos ilumine para que, perseverando sempre nos caminhos do Senhor e, também, “nada antepondo ao amor de Cristo”, possamos ser-lhe fiéis, apesar de nossas debilidades.
Espiritualidade de Dom Estevão por meio dos seus textos na revista Pergunte e Responderemos
Uma esperança alegre
Dos dois sentimentos – esperança alegre, saudosismo abatido – não há dúvida de que é o primeiro que prevalece no cristão. O passar do tempo não significa, para ele, perda real, mas, sim, etapa vencida para dar lugar a nova etapa, ainda mais rica e prenhe. Com o passar do tempo, o cristão, desde que seja fiel à sua vocação, aproxima-se da plenitude. A verdadeira vida de um filho de Deus é como uma semente que, depositada pelo Batismo no íntimo da alma, vai desabrochando ano por ano, para atingir a sua consumação. O lento e inevitável definhar do nosso homem exterior é acompanhado do constante revigoramento do nosso homem interior; o envelhecer é compensado ou mesmo superado por um rejuvenescimento contínuo, rejuvenescimento que se deve ao fato de que cada vez mais nos aproximamos do Definitivo ou da vida sem reservas. (PR, janeiro de 1971)
A oração
A oração há de ser cultivada com generosidade pelos monges. Mas é também tarefa dos apóstolos e de todos os cristãos que vivem no século. Quem ora não está subtraindo ao próximo tempo e energias (pode naturalmente haver casos em que se deva deixar a oração para atender ao próximo), mas está cultivando o espírito do amor, que o levará a se doar mais generosamente aos seus semelhantes. O homem que tenha perdido o senso da oração perdeu uma de suas dimensões mais autenticamente humanas. (PR, janeiro de 1973)
A sucessão das gerações
Janeiro… O início de um novo ano nos faz pensar na sucessão dos anos da história; as unidades se vão acrescentando: 1970, 1971, 1972, 1973… E, com a sucessão dos anos, é a sucessão das gerações que desfila ante os nossos olhos. Consideramos a longa série de homens que se vão afirmando na face da terra para tecer a história da humanidade. Os mais velhos entregam aos mais jovens a sua experiência e o seu saber, para que estes enriqueçam e desenvolvam tal patrimônio. Os mais jovens têm o direito de esperar dos mais velhos os valores que estes, pelo fato mesmo de terem vivido, hão de ter cultivado. Ninguém, porém, recebe um patrimônio para o enterrar; por conseguinte, os mais jovens tomam consciência de que eles, por sua vez, hão de ser transmissores aos que virão depois. (PR, janeiro de 1973)
A importância da vida de um cristão
… a vida de qualquer cristão é importante, por mais insignificante que pareça. É, sim, importante a vida de uns porque deixam obras e sinais vistosos; importante a vida de outros porque, embora não deixem marcos materiais aos olhos dos homens, deixam o exemplo do “sustentar”, do “aguentar firme”, do “pacientar tenaz e heróico”. Vivemos hoje tanto das façanhas vistosas como da paciência heróica e modesta de nossos antepassados. A geração de amanhã deverá também poder viver tanto das criações materiais e concretas como da tenacidade silenciosa e humilde dos homens e mulheres da geração presente. (PR, janeiro de 1973)
Em demanda do absoluto!
“O sentimento de que estamos em demanda de algo maior e melhor ou de algo definitivo é espontâneo em todos nós. Consequentemente, o cristão não se deixa ‘amarrar’ por coisas transitórias, pois ‘passa a figura deste mundo’ (1Cor 7,31). Importa-lhe, antes, fazer a reta escala dos valores, colocando cada bem e cada acontecimento no lugar certo, a fim de desabrochar harmoniosamente para a plenitude da vida. Não seja a chamada ‘morte’ surpresa, desinstalação ou susto, mas, sim, maturidade e consumação.” (PR, janeiro de 1976)
O valor das coisas
A sabedoria cristã ensina, com efeito, o valor de certos “desvalores”, tais como:
– o valor da inutilidade… Entenda-se aqui a inutilidade do que não é calculável ou ponderável, mas diz respeito ao mistério do próprio homem: a arte, a ética (os gregos costumavam associar o bem e o belo), a religião e o culto sagrado, a filosofia… É através dessas manifestações de si que o homem se encontra consigo mesmo e se torna mais autenticamente humano, porque pela intuição e pela mística se eleva ao Infinito e Transcendental;
– o valor da gratuidade… Esta significa “agir por agir” ou “agir porque a ação como tal vale ou merece o esforço do homem”, independentemente de qualquer retribuição material. Assim, o amor de benevolência, que quer tão somente o bem do ser amado, sem cobiça de vantagens para quem ama, é um espécime dessa gratuidade que dignifica o homem;
– o valor do silêncio… Este propicia um clima de saúde mental, no qual o homem se restaura, libertando-se das dilacerações impostas pela luta ruidosa de cada dia;
– o valor da contemplação e da oração… É no exercício destas que o homem se aproxima mais explicitamente do Infinito e passa a criar não com mãos humanas, mas com as mãos do próprio Deus;
– o valor do contato com a natureza… Esta lembra ao homem o mistério do mundo, dos espaços, dos mares, das florestas, dos insetos, dos pássaros, da vida… Lembra ao homem que ele não é senhor do que o cerca, mas está envolvido num mistério de sabedoria que lhe fala da Primeira e Suprema Inteligência.
É mister, pois, que os cristãos, longe de ceder à onda do pragmatismo, se disponham a cultivar tais bens, cuja falta vem sendo altamente nociva à sociedade contemporânea. Quem pode compreender esses valores (que não são propriamente valores de fé e, por isso, são patrimônio da humanidade inteira) senão aqueles que têm consciência de que o homem se diferencia da máquina, porque está aberto para novas e novas formas de criatividade, em demanda do Bem Absoluto? (PR, janeiro de 1977)
Reavivar a chama…
Muito significativas são as palavras que São Paulo dirige a seu discípulo Timóteo: “Eu te exorto a reavivar o dom de Deus que há em ti… Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade” (2Tm 1,6s).
Reavivar… Em grego, anazopyrein tem sentido mais forte: lembra um carvão em chama… esta, aos poucos, vai se extinguindo e deixa apenas uma brasa vermelha; por sua vez, a brasa vai-se recobrindo de cinzas a ponto de não mais se ver o fogo latente no carvão. É preciso, então, anazopyrein, isto é, soprar em cima das cinzas… estas se dissipam e o fogo, reexcitado, salta de novo como bela chama. Eis o que o Apóstolo deseja que Timóteo e os cristãos façam piedosamente, a fim de não se deixarem vencer pela timidez, mas restaurarem em si a força, o amor e a sobriedade que Deus lhes deu. (PR, janeiro de 1988)
A vida espiritual
A roda… consta de um aro, que se liga a um ponto central mediante raios. Ora, é interessante notar que esses raios, ao se aproximarem do seu centro, aproximam-se também, e cada vez mais, uns dos outros; e vice-versa, ao se distanciarem do seu centro, distanciam-se uns dos outros. Esta imagem significa, para os cristãos, algo de muito importante: os raios que convergem para o eixo central simbolizam os homens que, aproximando-se de Deus, aproximam-se sempre mais uns dos outros; a fraternidade entre os homens está necessariamente associada à paternidade de Deus; se não há Pai no céu, também não há irmãos na terra. A recíproca é válida: se os homens se afastam de Deus, afastam-se uns dos outros, como acontece com os raios da roda e como atesta sobejamente a história contemporânea. (PR, janeiro de 1990)
Padre Fábio da Silveira Siqueira
Vice-diretor das Escolas Luz e Vida e Mater Ecclesiae