O Altar e a Vida: Monsenhor Elia Volpi e o Beato Alfredo Ildefonso Schuster

No próximo dia 10 de setembro, completam-se cinco anos do falecimento de Monsenhor Elia Volpi. Poucos dias antes, em 30 de agosto, a Igreja celebra a memória litúrgica do Beato Alfredo Ildefonso Schuster, monge beneditino e Arcebispo de Milão, por quem Monsenhor Elia nutria especial admiração e profunda afinidade espiritual.

A proximidade dessas duas datas oferece ocasião propícia para aprofundar um aspecto já conhecido da personalidade e da formação de Monsenhor Elia: a influência que Schuster exerceu sobre seu pensamento, sua espiritualidade e, em particular, sobre seu modo de viver a Sagrada Liturgia.

Quem conviveu mais de perto com Monsenhor Elia, ou pôde beber de seu pensamento teológico-litúrgico, certamente encontrou, de algum modo, a figura deste sucessor de Santo Ambrósio. Schuster não era para ele apenas um autor citado ou uma referência do Movimento Litúrgico. Sua presença acompanhou Elia desde a juventude e deixou marcas perceptíveis até o fim de sua vida.

Recordar Monsenhor Elia à luz de Schuster é, portanto, uma maneira de compreender melhor o sacerdote que conhecemos: seu amor pela Liturgia, sua busca pela santidade e aquela singular maneira de estar diante do altar que tantos conservamos na memória.

Alfredo Ildefonso Schuster foi abade de São Paulo Fora dos Muros antes de ser nomeado para a Sé Ambrosiana e elevado à dignidade cardinalícia. Estudou no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, lecionou Liturgia na Escola Pontifícia de Música Sacra e no Pontifício Instituto Oriental e recebeu diversos encargos da Santa Sé. Como Arcebispo de Milão, atravessou os duros anos da Segunda Guerra Mundial e o período da reconstrução, unindo intensa atividade pastoral a uma vida de oração austera e disciplinada. Participou de maneira destacada do Movimento Litúrgico e dedicou grande parte de sua atividade intelectual ao estudo da Liturgia.

Faleceu em 30 de agosto de 1954, aos 74 anos. A fama de santidade que já o acompanhava em vida tornou-se particularmente evidente por ocasião de sua morte. Seu sucessor na Sé de Milão, o Cardeal Giovanni Battista Montini, futuro São Paulo VI, promoveu a abertura de sua causa de beatificação. Schuster foi beatificado por São João Paulo II em 12 de maio de 1996.

A santidade como atração

A influência de Schuster sobre Monsenhor Elia começou muito cedo. Em sua última entrevista, concedida ao seminarista Filipe Freitas Machado por ocasião de seus 60 anos de sacerdócio, Elia recordou que, “desde muito jovem, ainda antes de entrar no seminário”, já lia muitos livros do Cardeal Schuster, a quem definiu como “um liturgista ante litteram”, isto é, um liturgista antes mesmo de tal perfil se tornar comum no ambiente eclesial.¹

Mas reduzir a relação de Elia com Schuster a uma afinidade intelectual seria perder o essencial. Quando perguntado sobre as grandes influências de sua formação, respondeu:

“Para mim, foi sempre, digamos assim, o meu padre espiritual, digamos virtual, o Cardeal Schuster.”¹

E explicava a razão dessa admiração:

“Após vê-lo, certa vez em Milão, fiquei encantado com esta figura de asceta, de bispo, de liturgista. Ele irradiava santidade. Não só comigo, também para outros. Bastava vê-lo, mesmo não entendendo nada que ele dizia, mas era sua presença, sua imagem que irradiava esta coisa sobrenatural.”¹

Essa recordação permite compreender a profundidade da influência de Schuster sobre Monsenhor Elia. Aquilo que Elia conhecera nos livros adquirira, diante de Schuster, um rosto. Antes de admirar apenas o estudioso da Liturgia, ele parece ter sido conquistado pelo santo.

Essa recordação pessoal encontra confirmação no testemunho de Dom Piero Marini, que estudou com Elia no Seminário de Bobbio e posteriormente se tornaria Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias. Em uma conferência realizada na Abadia de Farfa, em 6 de novembro de 2004, Marini recordou que a memória de Schuster permanecera viva entre os seminaristas graças justamente a Elia Volpi, a quem definiu como “enamorado deste sucessor de Santo Ambrósio”. Recordou também que Elia lhe mostrava fotografias e recordações de Schuster que conservava cuidadosamente.²

Temos, assim, dois testemunhos que se iluminam mutuamente: Elia nos diz o que viu em Schuster; Piero Marini nos permite perceber o que aquela visão produziu em Elia.

Poucos dias antes de morrer, Schuster deixou aos seminaristas uma última recomendação:

“Outra recordação não tenho a dar-vos senão um convite à santidade. As pessoas parecem que não se deixam mais convencer pela nossa pregação, mas defronte à santidade ainda creem, ainda se ajoelham e rezam. As pessoas parecem que vivem ignorantes das realidades sobrenaturais, indiferentes aos problemas da salvação. Mas se um santo autêntico, vivo ou morto, passa, todos acorrem à sua passagem.”³

Talvez esteja aí o segredo da atração exercida sobre o jovem Elia. Antes mesmo de compreender plenamente suas palavras, ele viu um homem no qual aquilo que se celebrava parecia ter se tornado vida.

A renovação litúrgica

A formação sacerdotal de Monsenhor Elia ocorreu num período particularmente fecundo da história litúrgica da Igreja. Nas décadas que antecederam o Concílio Vaticano II, o Movimento Litúrgico, que tivera nos mosteiros beneditinos alguns de seus principais centros de irradiação, procurava favorecer uma compreensão mais profunda da Liturgia e uma participação mais consciente dos fiéis na vida litúrgica da Igreja. Schuster, monge beneditino e estudioso da Liturgia, pertenceu a esse ambiente de renovação e foi uma de suas figuras de referência.

Foi nesse contexto que as leituras de Schuster adquiriram importância especial na formação do jovem Elia. O interesse pelas questões que então animavam o debate litúrgico não deixou, porém, de lhe trazer dificuldades. Algumas ideias ligadas à renovação, como a concelebração, a missa vespertina e a reforma das festas, eram recebidas com desconfiança por alguns de seus formadores. Monsenhor Elia recordava as incompreensões que sofreu nesse período e até o atraso de sua ordenação subdiaconal.¹

Essas tensões ajudam a situar sua formação no clima eclesial daqueles anos. Muitas das questões que despertavam interesse no jovem seminarista pertenciam a um processo de renovação que vinha amadurecendo havia décadas e que, posteriormente, encontraria novo desenvolvimento na vida da Igreja.

A proximidade entre Elia e Schuster, portanto, é anterior ao Concílio Vaticano II. Em Schuster, Elia encontrou algumas das intuições do Movimento Litúrgico que prepararam o terreno para a renovação conciliar. Aquilo que, em sua juventude, podia parecer ousado e por vezes lhe trouxe incompreensões acompanharia depois toda a sua vida sacerdotal: a convicção de que a Liturgia não era apenas uma disciplina a ser conhecida ou um conjunto de cerimônias a serem executadas, mas a oração da própria Igreja e uma verdadeira escola de vida cristã.

Uma fé moldada pela Liturgia

A vida de Monsenhor Elia gravitava em torno da Liturgia porque nela reconhecia não simplesmente um conjunto de cerimônias, mas o lugar privilegiado em que a fé recebia forma. Em uma das mensagens dirigidas a seus filhos espirituais, escreveu:

“Se a minha fé é litúrgica e a Liturgia é a oração por excelência da Igreja, então a minha fé e a minha vida serão a fé e a vida da Igreja.”⁴

A formulação ajuda a compreender a fecundidade do encontro de Elia com o pensamento de Schuster. Também para o cardeal beneditino, a Liturgia não se reduzia a uma disciplina eclesiástica ou a uma ciência a ser estudada. Era a oração da Igreja e, sacramentalmente, ação que alcança e transforma os fiéis.

Schuster exprimia essa convicção nestes termos:

“Há uma oração especial que é por excelência a oração da Igreja, e tem, por conseguinte, também um nome particular: ela chama-se Liturgia. […] Onde o céu e a terra realmente dão-se as mãos e na qual a humanidade se redimiu no sangue do Cordeiro imaculado. Onde nas asas do Espírito alçamos voo altíssimo até o trono de Deus. A Sagrada Liturgia não só representa e expressa o inefável e o divino, mas através dos sacramentos e das suas fórmulas eucológicas o produz, por assim dizer, e o realiza nas almas dos fiéis.”⁵

A Devoção e as devoções

Essa mesma concepção aparece na maneira como ambos compreendiam a relação entre a Liturgia e as práticas particulares de piedade.

À luz das orientações da Sacrosanctum Concilium, Monsenhor Elia buscava uma relação harmoniosa entre a Sagrada Liturgia e as devoções, ressalvando que estas deveriam conduzir àquela e jamais substituí-la. Perguntado pelo Centro Dom Vital sobre como educar os fiéis para reconhecer e viver a primazia da Liturgia, respondeu:

“As devoções populares podem parecer antinômicas à liturgia; de fato, são uma propedêutica eficaz […] porém não é assim o devocionalismo porque, por sua natureza, é parcial e fragmentário.”⁶

Schuster, por sua vez, fazia uma interessante distinção entre a Devoção, entendida como a piedade da própria Igreja expressa no Opus Dei (“Obra de Deus”), e as diversas devoções particulares:

“Este divinum servitium, isto é, Opus Dei, engloba todo aquele conjunto de sacrifícios, de salmodias, de sacramentos e de orações que fazem parte da Sagrada Liturgia e que representam aquilo que propriamente se poderia chamar a Piedade ou a Devoção da Igreja.”⁵

E advertia: “Discrição com as devoções! As devoções não são sinônimos de piedade, a qual se identifica ao contrário com a Devoção. As devoções estão na devoção assim como os frutos estão na árvore.”⁵

As formulações, separadas por décadas, parecem dialogar. Nem Schuster nem Elia rejeitam as devoções; ambos recusam, porém, que o fragmentário ocupe o lugar da totalidade da oração da Igreja. A imagem de Schuster é particularmente feliz: os frutos permanecem fecundos enquanto ligados à árvore que lhes comunica a seiva.

A arte de celebrar

É talvez diante do altar que essa herança espiritual se torna mais visível. Quando celebrava, Monsenhor Elia parecia completamente envolvido pelo Mistério. Seus gestos solenes, o tom da voz, a postura e a maneira de caminhar não davam a impressão de simples execução de uma sequência ritual. Havia neles a consciência de estar diante de uma realidade que ultrapassava o próprio celebrante.

Dom Piero Marini empregou precisamente a expressão “epifania corpórea da Liturgia” ao tratar de Schuster. E, nesse contexto, recolheu as palavras do Cardeal Giacomo Biffi: “O povo acorria para contemplar este homem pequeno e frágil que, nas vestes do liturgo, se tornava um gigante.”²

A expressão ajuda a compreender também aquilo que muitos de nós víamos em Monsenhor Elia. Mas a melhor explicação talvez tenha sido dada por ele próprio.

Ao final da entrevista concedida ao Centro Dom Vital, perguntaram-lhe de que maneira a beleza litúrgica poderia favorecer a espiritualidade dos cristãos. Depois de recordar o antigo princípio lex orandi, lex credendi (“a lei da oração é a lei da fé”) e a exortação da ordenação sacerdotal Agnoscite quod agitis, imitamini quod tractatis (“Reconhecei o que fazeis e imitai o que realizais”), Monsenhor Elia resumiu toda a sua compreensão da Liturgia numa frase:⁶

“No fundo, a finalidade da liturgia é ‘SER’ o que se celebra, tornando-se paulatinamente o que somos por Cristo, com Cristo, em Cristo para a glória de Deus Pai na unidade do Espírito Santo.”⁶

Aqui se encontra, talvez, a chave de todo o percurso. Não se tratava apenas de compartilhar uma concepção da Liturgia, mas de compreender aquilo que ela deveria operar naquele que celebra. À luz das palavras de Elia, a expressão de Piero Marini sobre Schuster adquire todo o seu sentido: a Liturgia celebrada deveria, pouco a pouco, tomar forma naquele que a celebra, até prolongar-se na própria existência.

Foi isso que Monsenhor Elia contemplou em Schuster. E talvez tenha sido também isso que tantos de nós contemplamos em Monsenhor Elia.

A Liturgia que não tem ocaso

Cinco anos depois da partida de Monsenhor Elia, a melhor maneira de recordar sua herança talvez seja voltar àquilo que permaneceu no centro de sua vida: os sacramentos, a Palavra de Deus, a Liturgia das Horas e o Ano Litúrgico.

Para Schuster e para Elia, a Liturgia não era um ornamento da vida cristã. Era escola de santidade. Nela aprenderam a colocar Deus no centro, a receber a fé da Igreja e a oferecer a própria existência.

Por isso, a influência de Schuster sobre Monsenhor Elia não se mede apenas pelas citações que fazia do cardeal, pelos livros que leu ou pelas recordações que conservou. Ela se deixa perceber sobretudo numa convicção que atravessou sua vida sacerdotal: a Liturgia não termina quando cessa o rito. Aquilo que se celebra deve tornar-se vida.

Enquanto a Igreja peregrina celebra ainda sob os sinais deste mundo, ela mantém os olhos voltados para aquela Liturgia que não tem ocaso. Recordar a vida e a obra de Monsenhor Elia é também renovar essa esperança que seu testemunho nos deixou: voltar sempre ao essencial, até que os sinais cedam lugar à realidade e a oração da Igreja encontre sua plenitude em Deus.

RAMON ORNELLAS
Administrador, agente do mercado financeiro e membro do Conselho para Assuntos Econômicos da Paróquia Cristo Operário e Santo Cura D’Ars.

 

Notas e referências

  1. MACHADO, Filipe Freitas. “Última entrevista: O legado de monsenhor Elia Volpi na seara da liturgia e do ecumenismo”. Testemunho de Fé, Arquidiocese do Rio de Janeiro, 12 a 18 set. 2021, p. 8-9.
  2. MARINI, Piero. Alguns aspectos do Monge-Arcebispo Alfredo Ildefonso Schuster. Intervenção no Congresso de Estudos Históricos para comemorar o cinquentenário da morte do Beato Alfredo Ildefonso Schuster. Abadia de Farfa, 6 nov. 2004. Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. A citação do Cardeal Giacomo Biffi é reproduzida por Marini.
  3. PELOSO, Flavio. “Don Orione e il cardinal Schuster. Due santi per il Piccolo Cottolengo Milanese”. Terra Ambrosiana, n. 4, 2003, p. 44-51, esp. p. 50.
  4. VOLPI, Elia. Conversas particulares. 27 fev. 2021.
  5. BIFFI, Inos (org.). Pagine vive su la liturgia, la catechesi e la spiritualità. Milano: NED, 2004.
  6. VOLPI, Elia. Entrevista ao Centro Dom Vital. [s.d.].
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