O Magistério e a comunhão com o Verbo Encarnado

No ensejo das celebrações natalinas, vejo como oportuna uma reflexão mais apurada, ainda que breve, sobre o mistério da encarnação a fim de nos conduzir a um relacionamento mais íntimo e profundo com a Palavra Eterna de Deus que se encarnou no ventre de Maria sempre Virgem, assemelhando-se a nós para que n’Ele recuperemos a imagem e semelhança divinas perdidas por causa do pecado.

Pode-se afirmar que entre o Unigênito de Deus e nós homens há uma relação bilateral de Mestre e discípulos. Contudo, não se trata de um mestre de assuntos meramente imanentes, ou humanos, mas sim de um Mestre das coisas de Deus, haja vista o referido Mestre provir do próprio seio do Pai: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18). Ele é o Unigênito, o próprio e único Verbo eterno de Deus, Mestre dos mistérios divinos, pois é intimo ao coração do Pai, como nos confirma São Paulo: “Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro?” (Rm 11,34).

O Verbo próprio de Deus, poderia ser Mestre dos mistérios divinos apenas para os anjos. No entanto, na atual economia, em que somente o homem é chamado à comunhão de vida com Deus, o Verbo é somente Mestre dos homens.

Como Verbo, Jesus Cristo conhece os mistérios de Deus (cf. Rm 11,34). Neste sentido, o autêntico magistério de Deus há de vir do Verbo. Contudo, por que somente através da Encarnação, e não de simples revelações ou inspirações, podemos ter acesso à intimidade de Deus ou aos seus mistérios? Afina, a Abraão não foi suficiente a fé para a justificação?

A resposta nos é dada pelo mais novo Doutor da Igreja, Santo Irineu de Lion, apesar de ser um padre da Igreja do século II, foi proclamado recentemente pelo Papa Francisco como Doctor Unitatis: “‘Quem mais conheceu os pensamentos do Senhor?’ Ou ‘quem mais foi o seu conselheiro?’ Por outro lado, não era possível aprender a não ser vendo o nosso Mestre e percebendo com nossos ouvidos a sua voz, para que imitando as suas ações e praticando as suas palavras tivéssemos comunhão com ele e dele” (Contra as Heresias V 1,1).

Sendo assim, somente o Verbo próprio de Deus é capaz de declarar os mistérios do Pai a todos àqueles aos quais queira revelar, sejam eles anjos ou homens. Pois o Verbo é o único que os conhece justamente por estar no seio do Pai. E para fundamentar tal tese, Santo Irineu recorre a Jô 1,18: “Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único que está no seio do Pai, este o deu a conhecer”. Pois o Pai, que é invisível, é dado a conhecer a todos pelo Filho que está em seu seio. Por isso o conhecem aqueles a quem o Filho o revela, e, por seu lado, o Pai dá a conhecer o seu Filho, por meio do próprio Filho, aos que o amam.[1]

Ao relacionar Jo 1,18 com Rm 11,34, que por sua vez é inspirado em Is 40,13, Santo Irineu declara que só o Logos pode ser Mestre dos mistérios divinos: “Por outro lado, não era possível aprender a não ser vendo o nosso Mestre e percebendo com nossos ouvidos a sua voz, para que imitando as suas ações e praticando as suas palavras tivéssemos comunhão com ele e dele” (Contra as Heresias V 1,1). Contudo, Irineu o declara de forma redutiva ao introduzir o substantivo aliter, alius, esclarecendo-nos que somente é possível ao homem tomar acesso à intimidade divina através do Verbo encarnado de Deus. Neste sentido, para ensinar aos homens os mistérios de Deus, o Divino Mestre necessariamente há que se tornar homem.

Por outro lado, para apreender e aprender os mistérios de Deus o homem há que interagir com o Verbo feito homem “vendo o nosso Mestre e percebendo com os nossos ouvidos a sua voz” (Idem). Não bastariam aparições transitórias e revelações como as que temos no AT.

Não obstante, o Verbo, por sua vez, poderia doutrinar o homem de várias outras formas. Porém, são as limitações humanas que reclamarão a encarnação do Verbo. Pois de outro modo não aprenderia a imitar suas ações, praticar suas palavras e ter comunhão com ele e dele.

Para que o homem possa alcançar o profundo mistério exposto no axioma de Gn 1,26, ele necessariamente há que superar a sua índole imperfeita e criatural através da íntima comunhão[2] com o Verbo perfeito, e agora humanado, em virtude do Espírito derramado por Ele. Sendo assim, o Verbo Eterno, Filho de Deus humanado, apresenta-se como o único e verdadeiro caminho através do qual o homem pode restabelecer a ordem primitiva perdida no primeiro homem.

Com efeito, o homem, por sua própria condição terrena não é capaz de adentrar subitamente no esplendoroso recinto dos mistérios divinos, ao contrário, há que ser disciplinado paulatinamente para que no momento certo possa conhecer a Deus intuitivamente sem, contudo, deixar de ser homem. Este lento processo disciplinar iniciado a partir de Adão não pode, no entanto, ser levado a termo, ou consumado em perfeição correspondente ao magistério do Logos, se Este não se fizer homem perfeito na plenitude dos tempos. O magistério, por sua vez, é em sua plenitude revelado ao homem através da infusão do Espírito de Deus. Entretanto, tal infusão não procede do Verbo como tal, mas sim da carne do Verbo tornada por ele perfeita, ou seja, do seu corpo glorificado. Quão sublime e profundo mistério nos faz compreender porque o autêntico cristianismo não despreza a corporeidade como queriam as seitas gnósticas de então, tão influenciadas pela filosofia platônica, que concebiam o corpo como elemento maléfico, prejudicial, que supostamente impediria a transcendência da alma. Em Cristo temos a certeza de que entre corpo e alma não há dualismo algum, mas sim uma perfeita dualidade inerente à natureza humana glorificada em Cristo. Ele inicia seu magistério na plenitude dos tempos humanando-se e o leva a termo humanado em glória, revelando-o plenamente ao homem por meio da infusão do Espírito Santo.

Neste sentido, o homem em seu discipulado precisa ver seu Mestre, ouvi-lo sensivelmente e educar seus sentidos à imagem e semelhança dos sentidos corpóreos do Logos, até alcançar a comunhão de vida com Ele, ou seja, até levar a termo o seu processo de aprendizagem e atingir a perfeição do Mestre, do Logos humanamente perfeito. Neste sentido, podemos afirmar que o magistério do Logos e a disciplina do homem, ou sua imitação, ou ainda sua contínua assimilação ao Verbo constituem o itinerário necessário para se alcançar a comunhão in fieri de vida divina segundo a carne conforme nos propõe o Discípulo Amado (cf. 1Jo 1, 1-3).

 

Padre Valtemario S. Frazão Jr.

 

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