São Pascásio Radberto (c. 785–865) foi monge beneditino, teólogo carolíngio e abade da Abadia de Corbie, importante centro religioso e intelectual situado no norte da atual França. Inserido no contexto do Renascimento Carolíngio, destacou-se sobretudo por sua atividade exegética e por suas reflexões acerca dos sacramentos, da cristologia e da vida da Igreja. Sua produção, entretanto, abrange também extensos comentários bíblicos, nos quais a interpretação espiritual das Escrituras se articula à formação moral dos fiéis e à responsabilidade pastoral daqueles que governam a comunidade cristã.
Na “Expositio in Evangelium Matthaei”, Pascásio comenta a parábola do joio e do trigo, narrada em Mateus 13,24-30. Cristo é simultaneamente o semeador e o Senhor da messe. A criação e a boa semente procedem dele; o mal, ao contrário, não possui origem própria, mas é introduzido pelo inimigo como corrupção de uma realidade originalmente boa. A parábola não trata apenas da presença do mal no mundo, mas também da vigilância necessária para que ele não se infiltre na messe de Deus. O semeador não abandona o campo depois de lançar a semente: ele o guarda, sustenta seu crescimento, adverte os servos contra a negligência e preserva o trigo tanto da corrupção causada pelo inimigo quanto do zelo imprudente daqueles que poderiam arrancá-lo antes do tempo.
Pascásio inicia seu comentário recordando que o sentido profundo da parábola não foi revelado indistintamente à multidão, mas confiado aos discípulos, que se aproximam de Cristo como familiares da casa e recebem dele a interpretação dos elementos simbólicos: “‘O Reino dos Céus é semelhante’, disse Jesus, ‘a um homem que semeou boa semente em seu campo.’ Esta parábola o Senhor a expôs diante das multidões juntamente com as demais, mas de maneira bastante obscura. Depois, despedidas as multidões, entrou em casa. Aproximaram-se dele os discípulos, como se fossem de sua própria casa, seus mais íntimos familiares, e lhe disseram: ‘Explica-nos a parábola do joio do campo.’ Se esta parábola não lhes tivesse parecido mais obscura do que as outras, certamente não o teriam interrogado apenas acerca dela, como quem ignora o seu sentido. A multidão, aliás, nem merecia ouvir sua explicação, nem era capaz de compreendê-la. Então o bondoso Mestre lhes respondeu: ‘Aquele que semeia é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio, porém, são os filhos do Maligno. O inimigo que o semeia é o diabo’, e assim por diante. Fiz esta introdução para que nos fosse concedida maior liberdade de exposição e para que pudéssemos compreender com maior penetração as numerosas questões que o Senhor deixou entrever nessas poucas palavras. Pois aquilo que ele explicou e confiou à nossa inteligência deve ser investigado com maior profundidade e exposto com brevidade” (Pascásio Radberto. “Expositio in Evangelium Matthaei”, l. VII, c. 13. Ed. MPL 120, 585-589, tradução nossa).
A boa semente procede de Cristo, e nada de mau pode ser atribuído ao Criador: “Com efeito, é precisamente assim que procede o divino Juiz: cobre a verdade com figuras, envolve-a sob sacramentos e a vela por meio dos mistérios, para que os fiéis e os devotos sejam exercitados neles. Revela algumas coisas mais claramente, a fim de tornar os homens ainda mais desejosos de alcançar aquelas que permanecem ocultas. ‘O Reino dos Céus é semelhante a um homem’, disse ele, porque Cristo se fez homem para socorrer o gênero humano que caminhava para a perdição. Esse homem semeou boa semente em seu campo. Vês, pois, como o próprio Deus, feito homem, o Semeador do mundo, estabeleceu bons os princípios de todas as coisas. Nenhum mal procedeu do Autor da criação primeira, mas tudo ele fez muito bom. Por isso não se deve dar ouvidos aos maniqueus nem aos demais hereges, que afirmam que alguma realidade má foi criada pelo deus das trevas, pois o mal foi sobreposto pelo inimigo, e não produzido pelo Deus Criador, aquele que fez todas as coisas muito boas”.
Estabelecida a bondade originária da messe, Pascásio descreve a ação do diabo como uma “sobressemeadura”: ele não cria uma natureza nova, mas lança o joio no interior daquilo que Deus fez bom “O homem inimigo, isto é, o diabo, semeou o joio no meio do trigo (Mt 13,25): primeiro em Adão, quando este ainda estava no paraíso; depois em Caim, já no mundo; e assim sucessivamente em toda a descendência humana, desde o primeiro homem até o fim dos séculos. Para não alongar excessivamente esta exposição, basta dizer que ele sempre misturou males aos bens e vícios às virtudes. É evidente, portanto, que, de um só homem, Deus povoou toda a terra, e, de uma única semente, o piedoso Semeador multiplicou todo o gênero humano até formar uma imensa messe. O homem inimigo, chamado inimigo justamente porque deixou de querer aquilo que Deus quis, sempre converte os nossos vícios em nossa ruína e transforma em afronta aquilo que foi criado para o conhecimento e o louvor de Deus. Mentiu no mundo para que não se cresse em Deus, pois fingiu ser ele mesmo Deus. Assim tornou loucos os sábios deste século; ensinou os observadores do mundo a nada enxergarem; fez com que os mestres das ciências permanecessem sem verdadeiro conhecimento; e, como diz o Apóstolo, deixou ignorantes os investigadores das coisas. Desse modo, confundiu toda a seara semeada no mundo com a semente celeste, lançando sobre ela a perversidade das heresias e os enganos de suas imposturas, para que os feixes ligados pelos laços da fé e da caridade se transformassem em feixes destinados à geena e fossem consumidos pelo fogo eterno, impedindo que o trigo celeste chegasse ao celeiro. Não porque pudesse mudar a natureza do trigo, mas porque o contaminou pelo vício, para impedir que aquilo que fora criado bom pudesse alcançar o celeiro dos céus”.
O joio representa, portanto, não uma substância independente, mas a degeneração moral e espiritual do trigo: “Foi isso que realizou mediante astúcias, maquinações e fraudes: fazer degenerar o trigo para que se tornasse joio, não por mudança de natureza, mas pela corrupção do vício. Daí provêm no mundo as heresias; entre os santos, o pecado; entre os pacíficos, as discórdias; entre os simples, os enganos; entre os inocentes, a malícia. O diabo não se preocupa em conquistar o joio, sua intenção é perder o trigo. Não procura sitiar os mortos, mas atacar os vivos. Não deseja capturar aqueles que já possui como seus súditos, mas arrebatar os justos, corrompendo-os pelo seu próprio vício. E tudo isso ele não faz durante o dia, quando o homem vigia para guardar os mandamentos do Senhor, mas enquanto os homens dormem no torpor e na negligência”.
A messe, embora pertença ao semeador, é confiada ao cuidado de servos que devem permanecer atentos para que o mal não se introduza silenciosamente no campo: “Então o inimigo vem para o meio do trigo e se retira. Não vai a outro lugar senão ao meio do trigo, porque o mal não existe em parte alguma, senão em algum bem, para que, daquilo que é bom, o mau faça, por sua própria malícia, um mal. Contudo, nem isso ele consegue fazer senão quando adormece aquele a quem pretende enganar. Daí dizer Davi: ‘Dormitaram e dormiram o seu sono, e todos os homens das riquezas nada encontraram em suas mãos’ (Sl 75[76],6). Por isso o homem inimigo semeou o joio, para que perecesse toda a messe do Senhor. Realizou essa fraude ocultando-se nas trevas, para que o dano causado à seara adulterada recaísse sobre os servos, e aqueles que esperavam receber a palma da vitória viessem afinal a sofrer a pena”.
A vigilância requerida pela parábola adquire, então, uma dimensão pastoral: “Por essa razão os servos, despertando cheios de temor e solicitude diante do que havia acontecido, estremecem, receando que os rebentos do joio recaíssem em acusação contra eles, embora sua consciência não lhes reprovasse negligência alguma quanto à boa semente que lhes fora confiada. Daí ser necessário considerar quão perigoso é, para aqueles que presidem à Igreja, distrair-se com outras ocupações ou entregar-se ao torpor da negligência. Pois pode acontecer que, na seara confiada aos seus cuidados, o inimigo semeie joio, isto é, crimes ou heresias, de modo que pereça a boa semente lançada pelo Senhor. Com efeito, ainda que um homem semeie a palavra da pregação, é Cristo quem verdadeiramente semeia, porque é dele o poder de semear e porque é ele quem faz frutificar a semente lançada nos corações dos fiéis”.
A boa semente procede exclusivamente de Cristo, o Semeador do mundo, que fez boas todas as coisas e continua a semear sua palavra no coração dos fiéis. O inimigo, por sua vez, nada cria: ele age sobre aquilo que já existe, procura deformar a boa natureza, introduzir o vício na virtude, a heresia na fé, a discórdia na paz e a esterilidade naquilo que deveria produzir fruto. Por isso, o centro do comentário não está apenas na constatação de que trigo e joio coexistem no mesmo campo. Está também na afirmação de que a messe pertence a Cristo e permanece sob seu cuidado. O semeador não lança a semente para depois abandoná-la. Ele a guarda, sustenta seu crescimento, desperta os servos adormecidos e estabelece o momento próprio da colheita. Sua vigilância, entretanto, não elimina a responsabilidade daqueles aos quais o campo foi confiado.
Bispos, pregadores e demais ministros devem guardar a messe sem se deixarem vencer pelo torpor, pois o inimigo encontra ocasião justamente na negligência dos responsáveis. Essa guarda exige dupla prudência. De um lado, é necessário impedir que o joio seja semeado e que o mal corrompa a boa semente. De outro, é preciso evitar que, sob o pretexto de purificar o campo, se arranque também o trigo. A vigilância cristã não se confunde, portanto, com precipitação ou violência. Ela se exerce sob a autoridade do verdadeiro Senhor da messe, que conhece a natureza de cada planta, pode converter o joio em trigo e reserva para si o julgamento definitivo.
Carlos Frederico Calvet da Silveira Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio.