No dia 9 de julho, nossa amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro recolheu-se em prece, gratidão e profunda reverência. Naquela data, completaram-se exatos 14 anos desde que o Senhor da Vida chamou à Sua presença eterna um dos maiores pastores que a Igreja no Brasil já conheceu: o Eminentíssimo Senhor Cardeal Dom Eugenio de Araujo Sales, nosso venerável predecessor.
Ao entrar na cripta de nossa Catedral Metropolitana para celebrar o Santo Sacrifício da Missa em sufrágio de sua alma, conforme nossa tradição arquidiocesana, meu coração de pastor foi inevitavelmente tomado pelo peso histórico, espiritual e eclesial de quem tem a imensa responsabilidade de ocupar a mesma cátedra que, por três décadas, foi ocupada por esse gigante da fé.
Recordar Dom Eugenio não foi apenas um ato de piedade filial para com nossos antecessores; foi, sobretudo, um exercício de revisitar um manancial de ensinamentos que permanecem vivos e extraordinariamente atuais. Em um tempo em que a sociedade anseia por referenciais sólidos, a vida e o ministério de Dom Eugênio continuam a oferecer um roteiro seguro de como ser, ao mesmo tempo, um guardião intransigente da Verdade do Evangelho e um promotor incansável da caridade e da dignidade humana.
Quando foi sagrado bispo, o jovem Eugenio escolheu como lema episcopal as palavras do Apóstolo Paulo: Impendam et Superimpendar (“De mui boa vontade gastarei e me gastarei por vossas almas” – 2Cor 12,15). Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que poucas vezes um lema resumiu de forma tão profética e exata a vida de um homem. Dom Eugenio não poupou a si mesmo. Sua vida foi consumida, gota a gota, no serviço à Igreja e aos irmãos, especialmente aos mais fragilizados.
Ele compreendeu que o pastoreio não se faz de conveniências, mas de doação total. Acordando de madrugada e trabalhando até altas horas da noite, sua rotina foi um testemunho de abnegação. Ensinou-nos que a autoridade na Igreja só tem sentido quando exercida como serviço crucificado. Seu “gastar-se” não era um ativismo vazio, mas uma ação profundamente enraizada na oração diária, no amor à Eucaristia e na devoção filial à Virgem Maria.
Muitas vezes, a figura de Dom Eugenio é associada à sua firmeza doutrinária, mérito inegável. Contudo, seu legado não pode ser compreendido em toda a sua plenitude sem voltarmos o olhar para seu pioneirismo na ação social da Igreja. Muito antes de conceitos ligados à Doutrina Social da Igreja se popularizarem em determinados ambientes, Dom Eugenio já os colocava em prática com a genialidade dos santos.
Foi em seu amado Rio Grande do Norte, como Administrador Apostólico de Natal, que lançou as sementes do chamado “Movimento de Natal”. Ali idealizou a sindicalização rural cristã, criando cooperativas, escolas e as emissoras de Rádio Rural para alfabetizar e conscientizar o homem do campo sobre seus direitos e sua dignidade de filho de Deus. Foi também de seu coração de pastor, sensível às dores da pobreza e da fome, que nasceu, na paróquia de Nísia Floresta, o embrião do que hoje conhecemos e celebramos em todo o Brasil como a Campanha da Fraternidade.
Dom Eugenio ensinou-nos que a verdadeira caridade cristã não se confunde com ideologias passageiras nem com a luta de classes. Sua ação social nascia do altar, do reconhecimento de que, em cada pobre e em cada trabalhador explorado, estava o próprio rosto de Cristo. Deixou-nos a lição de que a promoção humana e a evangelização caminham juntas, de mãos dadas, sem jamais sacrificar o transcendente no altar das conveniências políticas.
Um dos capítulos mais belos — e, durante muito tempo, mais silenciosos — da vida de Dom Eugenio ocorreu durante os sombrios anos dos regimes militares na América Latina. Enquanto o Brasil e os países vizinhos do Cone Sul viviam tempos de exceção, perseguição e violência, Dom Eugênio transformou o Rio de Janeiro em um verdadeiro santuário de proteção.
Com a discrição que os grandes atos de amor exigem — preferindo o silêncio salvador ao discurso fácil dos palanques —, organizou uma rede de acolhimento sob a coordenação da Cáritas Arquidiocesana, em parceria com organismos ligados à ONU. Estima-se que mais de quatro mil pessoas, entre políticos, estudantes e ativistas que fugiam das ditaduras da Argentina, do Uruguai e do Chile, foram salvas da tortura e da morte porque Dom Eugenio lhes garantiu passaportes, passagens, moradia segura e saída do país. Foi criticado por uns por não gritar em praça pública e vigiado por outros por sua ação acolhedora. Para ele, porém, a vida humana era sagrada e inegociável. Dom Eugenio ensinou-nos, de forma eloquente, que o amor cristão se traduz em obras, e não apenas em palavras. A verdadeira coragem, muitas vezes, atua nos bastidores, sem buscar os holofotes.
Durante os 30 anos (1971-2001) em que pastoreou nossa Arquidiocese do Rio, enfrentou tempos de grandes turbulências teológicas e pastorais que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Em meio às tempestades e às incertezas, Dom Eugenio foi uma rocha firme. Sua fidelidade inquebrantável ao Magistério da Igreja e à pessoa do Santo Padre — cultivando profunda amizade filial com São João Paulo II, a quem recebeu no Rio de Janeiro em duas ocasiões memoráveis (1980 e 1997) — manteve a Igreja no Rio de Janeiro firme em seu caminho. Sua comunhão com o Sucessor de Pedro continua a inspirar-nos, especialmente em tempos de divisões e tensões eclesiais. Somos sempre chamados à unidade.
Dom Eugenio foi um defensor incansável da família, da moral católica, da sacralidade da vida desde a concepção até a morte natural e da sólida formação dos sacerdotes. Seus artigos semanais na imprensa carioca eram aguardados com interesse por fiéis e também por pessoas distantes da Igreja, pois sua palavra era respeitada, lúcida e sempre fundamentada na verdade do Evangelho. Ensinou-nos que o pastor não deve temer contrariar o “espírito do mundo” (cf. 1Cor 2,12). Em tempos de relativismo, sua firmeza continua sendo uma bússola que nos convida a amar a Igreja como ela é: Mãe e Mestra.
Ao celebrarmos a Santa Missa por seu descanso eterno, naquela quinta-feira, enquanto a cidade do Rio de Janeiro recebia a providencial e festiva visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, foi impossível não perceber que o testemunho de Dom Eugenio e a presença da Virgem Santíssima convergiam para a mesma missão: conduzir-nos a Jesus Cristo.
A herança que o Cardeal Sales nos deixou não constitui um museu de lembranças, mas um verdadeiro programa de vida. Seu testemunho desafia-nos, ainda hoje, a sermos católicos por inteiro. Convida nossos sacerdotes a gastarem a própria vida pelas almas. Convoca os leigos a não terem medo de atuar na política e na sociedade iluminados pelos valores do Evangelho. Inspira nossa Arquidiocese a continuar sendo a Igreja da caridade, que acolhe o morador de rua, o dependente químico, o desempregado e tantos aflitos de nossas periferias.
Muitos viam em sua postura reta e em seu semblante sério a imagem da rigidez; contudo, aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo de perto, ou que foram salvos por suas mãos discretas, conheceram a ternura de um verdadeiro pai. Dom Eugenio foi severo com o erro, mas imensamente misericordioso com aqueles que erravam.
Que o Senhor acolha esse servo bom e fiel na liturgia celeste. E que, do Céu, o magno Cardeal Eugenio de Araujo Sales continue intercedendo por sua — e nossa — amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Que nós, inspirados por seu testemunho, tenhamos a graça e a coragem de, todos os dias, gastar generosamente nossas vidas por amor a Cristo e aos irmãos.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro