“Recebemos o grande dom da Eucaristia e somos chamados a transmiti-lo às futuras gerações”

A Igreja de Sant’Ana, sede do Santuário Arquidiocesano do Coração Eucarístico de Jesus e da Obra da Adoração Perpétua, acolheu na tarde de 4 de junho a tradicional Oração das Vésperas da Solenidade de Corpus Christi. A celebração foi presidida pelo arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, e reuniu bispos auxiliares, sacerdotes, diáconos, religiosos, seminaristas, representantes de pastorais, movimentos eclesiais e numerosos fiéis.

Neste ano, excepcionalmente, a celebração foi realizada na Igreja de Sant’Ana, e não na Igreja de Nossa Senhora da Candelária, como tradicionalmente ocorre. A mudança integrou as comemorações do centenário da Obra da Adoração Perpétua e dos 100 anos da chegada dos Padres Sacramentinos ao Brasil, congregação à qual o Cardeal Sebastião Leme confiou a missão de promover a adoração ao Santíssimo Sacramento e difundir a espiritualidade eucarística.

Após a oração, teve início a procissão de Corpus Christi em direção à Catedral Metropolitana de São Sebastião. O Santíssimo Sacramento foi conduzido por Dom Orani em carro-andor, utilizando o mesmo ostensório empregado pelo Cardeal Sebastião Leme na inauguração da Obra da Adoração Perpétua, em 1926. O carro foi conduzido por jovens da Marinha do Brasil, em um gesto que uniu tradição, fé e memória histórica.

Em sua reflexão, Dom Orani destacou o significado especial de celebrar as Vésperas na Igreja de Sant’Ana, onde, há um século, foi estabelecida uma das mais importantes expressões de devoção eucarística da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O arcebispo recordou a figura de Dom Sebastião Leme, sepultado na nave da igreja, próximo ao presbitério, conforme seu desejo testamentário, para permanecer simbolicamente diante do Santíssimo Sacramento, que tanto amou e promoveu durante sua vida.

“Há cem anos, o Cardeal Leme iniciou aqui a Obra da Adoração Perpétua e prometeu ao Senhor que os cariocas e fluminenses permaneceriam diante do Santíssimo Sacramento, adorando e rezando até o fim dos tempos”, afirmou.

Dom Orani ressaltou ainda a profunda ligação entre o Cardeal Leme, o Santuário do Coração Eucarístico de Jesus e o Cristo Redentor. Segundo ele, a devoção ao Coração Eucarístico de Jesus inspirou diversas iniciativas pastorais e espirituais do então arcebispo do Rio de Janeiro, incluindo a valorização do coração como principal símbolo do monumento do Cristo Redentor.

“O coração é o grande sinal deixado por Dom Leme no Cristo Redentor. É a expressão visível da sua devoção ao Coração Eucarístico de Jesus e da certeza de que Cristo permanece vivo e presente no meio do seu povo”, destacou.

Ao recordar os cem anos de adoração ininterrupta, o arcebispo ressaltou a importância da oração contemplativa para a vida da Igreja. Segundo ele, além das atividades pastorais e missionárias, a comunidade cristã necessita de espaços permanentes de silêncio, escuta e adoração diante de Jesus Eucarístico.

“A Igreja precisa desse pulmão da contemplação. Precisamos parar diante do Senhor para ouvi-Lo, adorá-Lo, agradecer, pedir perdão e renovar as forças para a missão”, afirmou.

O arcebispo observou que a adoração perpétua se torna ainda mais necessária diante dos desafios do mundo contemporâneo, marcado pela violência, pelas divisões, pelas injustiças e pelo sofrimento humano. Para ele, a presença diante do Santíssimo ajuda os fiéis a recolocar Deus no centro da própria existência.

“Diante de tantas dores, sofrimentos e situações complexas que vivemos, precisamos voltar a colocar o Senhor no centro da nossa vida e do nosso coração”, disse.

Dom Orani também destacou que a espiritualidade eucarística conduz naturalmente ao compromisso com os irmãos mais necessitados. Ao recordar a tradicional coleta de alimentos realizada em Corpus Christi, ressaltou que a adoração não afasta os cristãos da realidade, mas os impulsiona ao serviço e à caridade.

“A contemplação não é fuga da realidade. Pelo contrário, ela nos faz entrar ainda mais profundamente nas dores e necessidades dos nossos irmãos e irmãs”, afirmou.

Ao concluir sua reflexão, o arcebispo recordou que a Eucaristia é fonte de unidade, fraternidade e esperança. Inspirado pelo tema da 100ª Semana Eucarística, destacou que a presença de Cristo conduz a Igreja à comunhão e à missão.

“Recebemos o grande dom da Eucaristia e somos chamados a transmiti-lo às futuras gerações, levando as pessoas ao encontro com Cristo e ajudando a construir uma sociedade mais humana, fraterna e solidária”, concluiu.

Carlos Moioli

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