Papa Leão XIV: “Deus deseja a paz. A violência não terá a última palavra”

O Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV, realizado no Vaticano nos dias 26 e 27 de junho, reuniu 178 cardeais em um momento de profunda reflexão eclesial. Entre os cardeais, esteve o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta.

O evento teve início com a celebração da Santa Missa na Basílica de São Pedro, seguida de sessões de trabalho na Sala Paulo VI e na Sala do Sínodo. O motivo central da convocação foi discernir como a Igreja pode anunciar o Evangelho com maior fidelidade, liberdade e credibilidade, tendo a missão como sua razão de ser e critério orientador.

Em seus discursos, o Papa Leão XIV foi enfático ao solicitar o apoio forte, explícito e público do Colégio Cardinalício, pedindo-lhes franqueza, lealdade e liberdade interior no exercício de seus conselhos. O Pontífice destacou temas interligados, como o olhar sobre a realidade atual, a transição da cultura do poder para a civilização do amor, o aprofundamento da Encíclica Magnifica humanitas e a implementação da sinodalidade. Ele ressaltou que a sinodalidade não é apenas um método de trabalho, mas um estilo espiritual focado na escuta e na corresponsabilidade.

Durante as sessões, os grupos de trabalho debateram desafios globais, como a polarização, a violência, a crise da família, a solidão e a necessidade de políticas humanas para a migração. A conclusão do evento foi marcada por uma nota de esperança e um apelo à paz, com o Papa afirmando que a violência não terá a última palavra. Leão XIV também expressou solidariedade às vítimas do terremoto na Venezuela e anunciou a realização de um novo Consistório até o final do ano.

Na Solenidade de São Pedro e São Paulo, dia 29 de junho, o Papa Leão XIV presidiu a Santa Missa na Basílica de São Pedro, coroando o clima de comunhão estabelecido durante o recente Consistório Extraordinário.

A celebração contou com a tradicional presença de uma delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, reforçando o papel dos apóstolos como as duas colunas da Igreja e modelos para a construção da unidade eclesial.

O ponto central da celebração foi o rito de bênção e entrega dos pálios a 35 arcebispos metropolitanos nomeados no último ano. O pálio, uma faixa de lã branca adornada com cruzes, possui um profundo significado simbólico: representa o compromisso do pastor de tomar sobre os próprios ombros os fiéis que lhe foram confiados, sacrificando-se para que o Evangelho alcance a todos. O Papa exortou os novos arcebispos a serem apóstolos e construtores de unidade, servindo à verdade com caridade.

Entre os prelados que receberam a insígnia, destacaram-se quatro arcebispos brasileiros, representando a vitalidade da Igreja no país. São eles: Dom Júlio Endi Akamine, arcebispo de Belém do Pará (PA); Dom José Roberto Fortes Palau, arcebispo de Sorocaba (SP); Dom Marco Aurélio Gubiotti, arcebispo de Juiz de Fora (MG); e Dom Mário Antônio da Silva, arcebispo de Aparecida (SP). Ao concluir a celebração, Leão XIV elevou preces aos santos padroeiros para que sustentem a Igreja no caminho da comunhão e da esperança, seguindo os passos de Cristo.

 

 

DISCURSO DO SANTO PADRE LEÃO XIV NA CONCLUSÃO DO CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO

27 de junho de 2026

 

Queridos irmãos,

Antes de iniciar a reflexão final, desejo expressar a nossa solidariedade — minha e de todo o Colégio Cardinalício — ao povo da Venezuela, duramente atingido pelo violento terremoto dos últimos dias. Asseguramos nossas orações pelas vítimas, por suas famílias e por todos aqueles que sofrem as consequências dessa tragédia. Confiamos ao Senhor também todos aqueles que estão empenhados nos trabalhos de socorro e pedimos que a solidariedade da comunidade internacional para com essa querida nação não venha a falhar.

 

Caros irmãos cardeais,

Chegamos ao fim destes dias com um sentimento de profunda gratidão. Agradeço a vocês pela liberdade, pela fraternidade e pelo espírito eclesial com que participaram de nossos trabalhos. Levo comigo não apenas o conteúdo de suas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis. Nestes dias, buscamos juntos a vontade do Senhor, na convicção de que Cristo continua a agir em sua Igreja: é Ele quem nos precede, nos reúne, fala por meio dos irmãos e nos conduz na missão. Tudo nasce d’Ele e tudo retorna a Ele. Por isso, ver cardeais provenientes de Igrejas, culturas e situações tão diversas ouvindo-se mutuamente e buscando juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim motivo de consolo e de esperança.

Começamos estes dias deixando-nos guiar pela imagem do bom samaritano: um homem que se detém diante do irmão ferido, deixa-se comover no mais profundo do seu ser e cuida dele. Gostaria agora de nos despedir com outra imagem evangélica: a dos discípulos de Emaús. Também eles caminham marcados pela tristeza e pela decepção, mas o Senhor torna-se seu companheiro de viagem, ouve suas perguntas, explica as Escrituras, faz arder seus corações e transforma sua jornada. Gosto de pensar que também o que vivemos nestes dias tem algo dessa experiência: caminhamos juntos, ouvimos uns aos outros e, se abrimos espaço para o Senhor, Ele reacendeu a esperança em nossos corações e agora nos remete às nossas Igrejas para retomarmos a caminhada com um olhar renovado.

A reflexão conclusiva sobre o caminho sinodal nos ajudou a reler o que vivemos nestes dias. Parece-me que a questão da sinodalidade não é, antes de tudo: «quem tem o poder de decidir?». A questão é mais profunda: «como guardamos juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja?». Quando essa pergunta se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram seu devido lugar, iluminadas pela missão e pela fidelidade comum ao Evangelho. Assim, desejo confiar a vocês, mais uma vez, o caminho de implementação do Sínodo. Peço-lhes que o acompanhem com convicção nas Igrejas que servem, promovendo uma compreensão autêntica e incentivando todos a participar: trata-se de ajudar nossas Igrejas a crescer em um estilo cada vez mais evangélico.

Lembrem-se: como ouvimos do cardeal Grech, a sinodalidade não é um conjunto de reuniões, nem um método de trabalho. É um estilo espiritual. Nasce do encontro, cresce na escuta e amadurece no discernimento. A verdadeira questão não é quantas conversas conseguiremos organizar, mas qual será a qualidade evangélica de nossos encontros. Quando nos ouvimos com humildade e liberdade, dando espaço ao Espírito, nossas conversas não se limitam a uma troca de ideias, mas se tornam um espaço de conversão, no qual crescemos juntos na fidelidade ao Senhor.

Ao refletir sobre as conversas destes últimos dias, levo comigo, antes de tudo, o olhar com que vocês contemplaram o mundo na primeira sessão. Muitos de vocês relataram os sofrimentos causados pelas guerras, pela violência, pela pobreza e pelas tantas injustiças que marcam a vida dos povos. No entanto, vocês não se limitaram a descrevê-los. Por trás desses dramas, vocês reconheceram um sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise nas relações, a perda da esperança, a dificuldade de se reconhecerem mutuamente como irmãos e irmãs. É um olhar que não desvia os olhos das feridas do mundo, mas busca suas raízes, reconhecendo, muitas vezes escondidas nelas, uma renovada busca por sentido, autenticidade, espiritualidade e comunidade. Muitos buscam hoje esperança e relações verdadeiras.Fiquei particularmente impressionado com a maneira como vocês falaram sobre os jovens. Em suas perguntas, mas também no sofrimento que, às vezes, os leva ao desespero – e, por vezes, ao desespero extremo de tirar a própria vida –, vocês reconheceram uma das feridas mais profundas do nosso tempo. Mas também souberam reconhecer nisso a ação do Espírito. A busca deles por autenticidade, por relações verdadeiras e por sentido nos lembra que o Evangelho continua a atender às expectativas mais profundas do coração humano. Ouvir esses jovens e suas famílias com humildade é também um caminho pelo qual o Senhor continua a converter a Igreja.

Muitos de vocês também mencionaram a família. Lá onde ela é apoiada e acompanhada, surge uma escola de relacionamentos, de solidariedade e de esperança; lá onde ela é ferida ou isolada, toda a sociedade arca com as consequências. Em outubro, teremos um encontro com os chefes das Igrejas orientais e os presidentes das Conferências Episcopais para avaliar os passos dados após Amoris Laetitia. Também participarão algumas famílias que compartilharão suas experiências. A presença delas é essencial, mas espero que todos os que vierem se preparem ouvindo com atenção e trazendo a experiência das famílias de suas Igrejas.

Assim, vocês tentaram ouvir o que as feridas do mundo revelam sobre o coração do homem. É justamente ali, no coração, que a paz também se decide. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a desconfiança toma o lugar da confiança, o medo, da esperança, e o outro passa a ser visto como uma ameaça. Mas é nesse mesmo coração que Cristo continua a nos encontrar, a nos falar e a nos converter. De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas, novas relações e uma paz capaz de alcançar até mesmo os povos.

A segunda sessão nos levou a dar um passo adiante. Parece-me que vocês compreenderam com grande clareza uma das intuições da Magnifica humanitas: a guerra não é apenas um conflito entre Estados. Ela nasce muito antes, de uma cultura do poder que permeia nossa maneira de pensar, de viver as relações, de exercer o poder, de usar a economia, a tecnologia e até mesmo a religião.

Se essa é a raiz da crise, a resposta exige a reconstrução de uma cultura de cooperação e diálogo, capaz de dar novo fôlego também ao multilateralismo, para que os povos aprendam novamente a buscar juntos o bem comum de toda a família humana. Nesse caminho, a contribuição dos fiéis leigos engajados na vida pública é essencial: eles precisam da proximidade e do apoio da comunidade eclesial para viver a “caridade política” que vocês mencionaram. A própria cultura da cooperação cresce por meio do diálogo ecumênico e inter-religioso, que não atenua nossa identidade cristã, mas a torna capaz de servir, em conjunto, ao bem comum e à paz.

Achei ainda particularmente valiosa a maneira como alguns de vocês abordaram o tema da resposta não violenta diante das muitas formas de violência. Trata-se de uma forma profundamente evangélica de viver a história, fruto da contemplação da maneira de agir de Jesus. Não consiste na renúncia ao conflito nem em uma atitude passiva, mas na escolha de enfrentá-lo sem reproduzir sua lógica. Ela não renuncia à verdade nem silencia o mal, mas se recusa a defendê-la com violência e a transformar o outro em inimigo: começa por desarmar a si mesmo. Assim, ela revela a lógica da Páscoa, na qual o amor se manifesta mais forte que o ódio e o perdão rompe a espiral da vingança. Essa é a força do Crucificado ressuscitado: uma força que não destrói o inimigo, mas torna possível reencontrar um irmão.

Nessa perspectiva, diversos grupos destacaram a oportunidade de continuar a aprofundar o tema da legítima defesa, à luz das profundas transformações ocorridas na natureza dos conflitos contemporâneos. Essa reflexão merece ser desenvolvida ainda mais com o necessário rigor teológico e pastoral.

Recebi com particular interesse também a insistência de vocês na Doutrina Social da Igreja. Vocês expressaram o desejo de que ela se torne cada vez mais um patrimônio vivo de nossas comunidades, um critério comum para a formação da consciência e o discernimento pastoral. Ela não oferece soluções pré-estabelecidas, mas educa a Igreja a uma maneira evangélica de viver a realidade, interpretá-la e orientar a ação de forma responsável.

Outra convergência também me chamou a atenção. Muitos de vocês observaram que, hoje, o bem comum não é simplesmente um objetivo a ser perseguido: é uma realidade a ser redescoberta juntos. Vivemos uma época em que se torna difícil até mesmo reconhecer o que é realmente bom para todos. Por isso, enraizada em Cristo, a Igreja é chamada a preservar espaços de encontro, de escuta e de diálogo, nos quais possa amadurecer uma cultura renovada do bem comum. Isso exige também um trabalho educativo paciente, que ajude a reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa e a responsabilidade que nos une uns aos outros. Nesse caminho, os pobres não são apenas destinatários de nosso cuidado, mas protagonistas da esperança que Deus continua a suscitar na história.

De muitas de suas reflexões emergiu com força também outra convicção. Enquanto nos questionávamos sobre as responsabilidades da Igreja no mundo de hoje, vocês recordaram continuamente a importância do testemunho, da proximidade, da formação das consciências e da construção de comunidades fraternas e confiáveis. Esse testemunho nasce do encontro com Cristo, de sua Palavra e dos sacramentos, nos quais o Senhor sustenta seu povo e o torna capaz de servir ao mundo com a força do Evangelho. A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama. É sobre esse fundamento que também as necessárias reformas das estruturas, das instituições e dos processos podem dar frutos.

Assim, esses dias reforçam minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio. Se soubermos continuar buscando juntos a vontade do Senhor, deixando-nos guiar pelo Espírito Santo, estou certo de que nossa comunhão se tornará cada vez mais fecunda para a missão da Igreja e para o serviço a toda a família humana.

Acredito que, pouco a pouco, estamos redescobrindo o significado mais autêntico do Consistório: a reunião do Colégio Cardinalício em torno do Sucessor de Pedro para que, na escuta mútua e no discernimento comum, o Espírito Santo ajude o Papa a guiar a Igreja. Não um parlamento, não um congresso em que prevalecem opiniões ou interesses, mas uma experiência de comunhão a serviço da missão. O que aprendemos a viver nestes dias não diz respeito apenas ao Colégio Cardinalício. É um estilo que somos chamados a promover em toda a Igreja, para que cada batizado, segundo sua vocação e responsabilidade, participe da construção da civilização do amor e do serviço ao bem comum. Como já lhes antecipei, desejo dar continuidade a este encontro anual também a partir do próximo ano. Ainda não defini a data: pretendo comunicá-la a vocês no final do ano.

Este Consistório foi um momento precioso, mas não deve permanecer um evento isolado. Em toda a Igreja, desejamos promover espaços nos quais o Povo de Deus possa ouvir-se, orar, discernir e caminhar juntos. Essa é a essência do caminho de implementação do Sínodo. Esse será também o espírito do próximo encontro dedicado à Amoris laetitia e de muitas outras iniciativas que o Senhor nos pedirá para viver. O que importa não é multiplicar os encontros, mas aprender a viver encontros nos quais, ao nos escutarmos mutuamente, aprendamos juntos a escutar o Senhor.

Antes de concluir, desejo acolher o apelo unânime que surgiu deste Consistório e torná-lo meu. Na verdade, gostaria que o fizéssemos juntos, por meio destas palavras. Digamos isso aos nossos irmãos bispos, às Igrejas confiadas ao nosso ministério e a todos os povos da terra: Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, na história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de trilhá-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los.

Agradeço de todo o coração pela sua contribuição, bem como aos Relatores, aos Moderadores e a todos aqueles que, com generosidade e discrição, tornaram possíveis estes dias de trabalho e fraternidade. Obrigado por me terem ajudado, mais uma vez, a reconhecer a obra que Cristo continua a realizar no meio de seu povo e no mundo. Confiemos os frutos deste Consistório à intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança.

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