Santidade: rosto mais belo da Igreja!
A Solenidade de Todos os Santos, que hoje celebramos, convida-nos a elevar o olhar ao Céu e a meditar sobre a plenitude da vida divina que nos espera. A santidade — imprimir Cristo em si mesmo — é a finalidade da vida do cristão.
Celebramos o triunfo de todos os santos, os nossos heróis. Afinal, olhamos para a meta da nossa existência, para a qual fomos criados, e vemos os que já chegaram: os declarados santos solenemente pela Igreja e também muitíssimos outros que, para sempre, gozam da glória divina.
A nossa vocação é para a santidade! É o que nos atesta São Paulo: “Nele, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor” (Ef 1,4). “A vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4,3). Os santos não são uma exígua casta de eleitos, mas uma multidão inumerável, para a qual a liturgia de hoje nos exorta a levantar o olhar. Em tal multidão, não estão somente os santos oficialmente reconhecidos, mas os batizados de todas as épocas e nações. De uma grande parte deles, não conhecemos os rostos nem sequer os nomes, mas, com os olhos da fé, vemo-los resplandecer, como astros repletos de glória, no firmamento de Deus.
A santidade exige um esforço constante, mas é possível para todos porque, mais do que uma obra do homem, é sobretudo um dom de Deus, três vezes Santo (cf. Is 6,3).
A Igreja recorda a santidade à qual os cristãos são chamados, como apresenta o Papa Francisco em sua exortação apostólica Gaudete et exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual: “O Senhor nos quer santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa” (GE, 1).
“A santidade é o rosto mais belo da Igreja.” “Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia Léon Bloy, na vida ‘existe apenas uma tristeza: a de não ser santo’” (Papa Francisco, GE, 34).
A Igreja convida-nos, hoje, a pensar naqueles que, como nós, passaram por este mundo, lutando com dificuldades e tentações parecidas com as nossas, e venceram. É essa grande multidão que ninguém poderia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de que nos fala São João em Ap 7,2-14. Todos estão marcados na fronte, revestidos de vestes brancas, lavadas no Sangue do Cordeiro (Ap 7,13-14). A marca e as vestes são símbolos do Batismo, que imprime no homem, para sempre, o caráter da pertença a Cristo, e da graça, renovada e aumentada pelos sacramentos e pelas boas obras.
Festejamos e pedimos ajuda à multidão incontável dos que alcançaram o Céu depois de terem passado por este mundo, semeando amor e alegria quase sem terem consciência disso; recordamos aqueles que, enquanto estiveram entre nós, ocuparam-se, talvez, de um trabalho semelhante ao nosso: empregados de escritório, comerciantes, empregadas domésticas, professores, secretárias, trabalhadores da cidade e do campo… Lutaram com dificuldades parecidas com as nossas e tiveram que recomeçar muitas vezes, como nós procuramos fazer.
Mas “para que servem o nosso louvor aos santos, o nosso tributo de glória, esta nossa solenidade?”. Com esta interrogação tem início uma famosa homilia de São Bernardo para o Dia de Todos os Santos. É uma pergunta que se poderia fazer também hoje. E continua atual a resposta que o santo nos oferece: “Os nossos santos, diz, não têm necessidade das nossas honras, e nada lhes advém do nosso culto. Por minha vez, devo confessar que, quando penso nos santos, sinto-me arder de grandes desejos”. Eis, portanto, o significado da solenidade de hoje: contemplando o exemplo luminoso dos santos, despertar em nós o grande desejo de ser como eles, felizes por viver próximos de Deus, na Sua luz, na grande família dos amigos de Deus. Ser santo significa viver na intimidade com Deus, viver na Sua família. Essa é a vocação de todos nós, reiterada com vigor pelo Concílio Vaticano II e hoje proposta de novo, solenemente, à nossa atenção.
Todos fomos chamados a alcançar a plenitude do amor, a lutar contra as nossas paixões e tendências desordenadas, a recomeçar sempre que preciso, porque “a santidade não depende do estado — solteiro, casado, viúvo, sacerdote —, mas da correspondência pessoal à graça que a todos nós é concedida” (São Josemaria Escrivá). A Igreja recorda-nos que o trabalhador, que todas as manhãs empunha a sua ferramenta ou caneta, e a mãe de família, que se ocupa de seus trabalhos domésticos, devem santificar-se no lugar que Deus lhes designou, cumprindo fielmente os seus deveres.
Agora podemos fazer nossa a oração de Santa Teresa, que ela mesma escutará: “Ó almas bem-aventuradas, que tão bem soubestes aproveitar e comprar herança tão deleitosa…! Ajudai-nos, pois estais tão perto da fonte; obtende água para os que aqui perecemos de sede”.
Nós somos, ainda, a Igreja peregrina que se dirige para o Céu; e, enquanto caminhamos, temos de reunir esse tesouro de boas obras com que um dia nos apresentaremos a Deus. Ouvimos o convite do Senhor: “Se alguém quer vir após Mim…”. Todos fomos chamados à plenitude da vida em Cristo. O Senhor chama-nos numa ocupação profissional para que ali O encontremos, realizando as nossas tarefas com perfeição humana e, ao mesmo tempo, com sentido sobrenatural: oferecendo-as a Deus, vivendo a caridade com os nossos colegas, praticando a mortificação de um trabalho perfeitamente terminado, procurando, já aqui na terra, o rosto de Deus, a quem um dia veremos face a face.
“Para amar a Deus e servi-Lo, não é necessário fazer coisas estranhas. Cristo pede a todos os homens, sem exceção, que sejam perfeitos como o seu Pai celestial é perfeito (Mt 5,48). Para a grande maioria dos homens, ser santo significa santificar o seu trabalho, santificar-se no seu trabalho e santificar os outros com o seu trabalho, e assim encontrar a Deus no caminho da vida” (São Josemaria Escrivá).
Vale a pena meditar as palavras de São João Paulo II, que apontam a santidade ao alcance de todos: “São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a chamada universal à santidade e mostrar que as atividades correntes que compõem a vida de todos os dias são caminho de santificação. Pode-se dizer que foi o santo do cotidiano. De fato, estava convencido de que, para quem vive sob a ótica da fé, tudo é ocasião de um encontro com Deus, tudo se torna um estímulo para a oração. Vista desta forma, a vida diária revela uma grandeza insuspeitada. A santidade apresenta-se verdadeiramente ao alcance de todos” (São João Paulo II).
O que fizeram essas mães de família, esses intelectuais ou operários para estarem no Céu? Pois bem, procuraram santificar as pequenas realidades diárias! E é isso o que temos de fazer: ganhar o Céu todos os dias com as coisas que temos em mãos, entre as pessoas que Deus colocou ao nosso lado. O exemplo dos santos constitui para nós um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria daqueles que confiam em Deus, porque a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade para o homem é o fato de viver longe de Deus.
A festa de hoje procura nos animar a seguir em frente no caminho da santidade, com confiança e coragem. Em resumo, o Céu é a felicidade perfeita e eterna. Devemos desejá-lo acima de tudo. O que Deus nos oferece é o bem supremo. Cristo une-nos ao Seu mistério, que é mistério de vitória. Assim como aos santos, se estivermos bem unidos a Cristo, a vitória nos está prometida. Que a intercessão e o exemplo dos santos nos ajudem! Eles nos deixaram seus exemplos, intercedem por nós junto de Deus e são a nossa torcida.
Encontramo-nos a caminho do Céu e muito necessitados da misericórdia do Senhor!
A condição para entrar no Céu é fazer a vontade de Deus do modo como Ele quer. Isso significa um combate espiritual até o fim da vida, uma luta pessoal constante para buscar a coerência entre a vida e a fé nas opções a fazer, nas decisões a tomar. Significa empregar os meios, especialmente a oração e os sacramentos. O principal é Deus quem realiza com a Sua graça. O Céu é um presente de Deus e está ao alcance de qualquer um que o queira.
Por ocasião da canonização dos beatos Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis, disse o Papa Leão XIV: “Ambos, Pier Giorgio e Carlo, cultivaram o amor a Deus e aos irmãos através de meios simples, ao alcance de todos: a Santa Missa diária, a oração, especialmente a Adoração Eucarística. Carlo dizia: ‘Diante do sol, bronzeamo-nos. Diante da Eucaristia, tornamo-nos santos!’. E ainda: ‘A tristeza é o olhar voltado para si mesmo, a felicidade é o olhar voltado para Deus. A conversão nada mais é do que desviar o olhar de baixo para cima, basta um simples movimento dos olhos’. Outra coisa essencial para eles era a Confissão frequente. Carlo escreveu: ‘A única coisa que devemos realmente temer é o pecado’; e admira-se porque — são sempre palavras suas — ‘os homens se preocupam tanto com a beleza do próprio corpo e não se preocupam com a beleza da própria alma’. Ambos, finalmente, tinham uma grande devoção pelos santos e pela Virgem Maria e praticavam generosamente a caridade. Pier Giorgio dizia: ‘Em torno dos pobres e dos doentes, vejo uma luz que nós não temos’. Definia a caridade como ‘o fundamento da nossa religião’ e, tal como Carlo, praticava-a sobretudo através de pequenos gestos concretos, muitas vezes ocultos, vivendo aquela que o Papa Francisco chamou de ‘a santidade ao pé da porta’” (Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, 7).
Concluiu o Papa Leão XIV: “Queridos, os santos Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis são um convite dirigido a todos nós — especialmente aos jovens — a não desperdiçar a vida, mas a orientá-la para cima e a fazer dela uma obra-prima. Eles encorajam-nos com as suas palavras: ‘Não eu, mas Deus’, dizia Carlo. E Pier Giorgio: ‘Se tiveres Deus no centro de todas as tuas ações, então chegarás até ao fim’. Esta é a fórmula simples, mas vencedora, da sua santidade. E é também o testemunho que somos chamados a seguir, para saborear a vida até ao fim e ir ao encontro do Senhor na festa do Céu”.
Invoquemos especialmente Maria, Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela é a Rainha dos santos, a Toda Santa. Que ela nos faça ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo! No Céu, espera-nos a Virgem Maria para nos estender a mão e nos levar à presença do seu Filho e de tantos seres queridos que nos aguardam. Que a Rainha de todos os santos nos ajude a caminhar, com prontidão, na vereda da santidade!
Dom José Maria Pereira
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro