A mulher dos cachorrinhos

O quanto de desespero e dor é capaz de existir no grito de uma mulher? O quanto de muito mais é capaz de existir no seu silêncio? Eu não sei a resposta e acho que você também não sabe…

No entanto, duas coisas é preciso ter em mente: fique atento ao grito de uma mulher e desconfie sempre do seu silêncio. Nos dois casos, há algo de muito errado. Mas hoje eu não quero falar sobre o silêncio.

Quero falar sobre a coragem do grito. De gritar as dores, as necessidades mais profundas, de perturbar a ordem vigente, reivindicar direitos em uma sociedade que desde que o mundo é mundo teima em silenciar as mulheres e seus direitos mais básicos.

Longe de mim querer levantar bandeiras aqui. Assim como a mulher que fala no poema “Com licença poética”, de Adélia Prado, eu também acredito que “carregar bandeira é fardo muito pesado para mulher, esta espécie ainda envergonhada”.

E gritar, eu digo, não para qualquer pessoa. O que quero tratar brevemente aqui, mais do que sobre nós, mulheres, é sobre a pessoa de Jesus que não só não nos silencia, como nos dá voz, nos escuta, através de tantas viúvas, amigas, idosas, mães, filhas, nos Evangelhos, como o de Mateus 15,21-28.

Não há uma leitura que eu faça desse texto que eu não me emocione. Eu até o apelidei afetuosamente de “A mulher dos cachorrinhos”, para ficar mais fácil de eu não esquecer. Penso que foi através dele que eu entendi quem era Jesus para mim, quando O senti se “comunicando” comigo, com meus gritos, internos e externos, e meus destemperos às vezes. Foi quando me vi sendo amada por Deus do jeito que eu sou.

O episódio se passa na região de Tiro e Sidônia. Certamente a mulher cananeia que conta a história, estrangeira, ficou sabendo do desembarque de Jesus por aquelas terras, depois de sair de Genesaré, lugar onde, para variar, o Senhor havia se estressado com alguns fariseus e doutores da Lei de Jerusalém, acusando-os de hipócritas, guias de cego, etc. (Mateus 15,1-20).

Imaginem, cansado da viagem, mal havia desembarcado, e uma mulher aparece aos gritos dizendo: “Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim”. A Sagrada Escritura não diz, mas gosto de acreditar que os gritos iam aumentando, à medida que ela ia atrás de Jesus e contando a sua história. “Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio”.

Demônio que passou, simbolicamente, a ser dela também, tamanho o sofrimento de sua filha e de sua família. Só uma mulher muito sofrida e de muita coragem é capaz de enfrentar o demônio para salvar quem ama, não sozinha, mas ao lado daqu’Ele que tudo pode contra Ele, Jesus Cristo!

Nosso Senhor não lhe dá resposta. Talvez pelo cansaço da viagem, talvez por estar cercado pelos discípulos e por muitas outras pessoas, mas, principalmente, porque quem naquela época daria ouvidos a uma mulher e ainda estrangeira?! Tanto que os discípulos incomodados pedem para que Jesus mande a mulher ir embora, “porque ela vem gritando atrás de nós” (grifo nosso).

Jesus dá uma resposta assertiva. Não acolhendo o pedido dos discípulos, claro, mas como que falando consigo mesmo: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel”. A mulher era pagã, mas tinha um diferencial para além de sua origem; a coragem não apenas de ser forte na luta contra o mal, mas de naquele contexto reconhecer Jesus não só como uma personalidade moral e religiosa, mas alguém que realiza um projeto concreto: restaurar os homens na vida total.

Penso que de algum modo ela sabia que Jesus, mesmo sem compreender ao certo quem era Ele, exerce sua missão em benefício de todos, sem distinção, e não de acordo com os critérios e interesses de privilegiados, por isso ajoelha-Se diante d’Ele e começa com o próprio Deus um pequeno grande diálogo.

– Senhor, ajuda-Me.

– Não é certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos.

– Sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.

– Mulher é grande a sua fé! Seja feito como você quer.

A Palavra diz que a mulher “começa a implorar”. Perceba que situação indigna para uma mulher; primeiro gritando para ser ouvida e, depois, ajoelhada no meio da rua para um homem na frente de tantos outros.

No entanto, ela não estava na frente de qualquer homem, mas do Filho do Homem, corajosamente argumentando com o próprio Deus, sendo ouvida por Ele, o único para quem devemos implorar e nos humilhar.

Jesus, na sua condição humana, sabe do poder da escuta e da presença, mais do que isso, sabe exatamente quem é aquela mulher, sua sinceridade, sua determinação, o amor por sua filha, conhece o seu coração muito mais do que ela.

Gosto de pensar que ao proferir em voz alta, ainda que para si mesmo: “Eu fui mandado somente para as ovelhas…” Jesus já estava operando a cura na filha da mulher cananeia. E que a frase “Não é certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos” é apenas uma provocação para que ela manifeste diante d’Ele, e de si mesmo, toda a sua capacidade, dignidade, a sua inteligência, força e coragem, a fim de valorizá-la.

Com efeito, seriam no mínimo estranhas falas preconceituosas e excludentes de alguém que anteriormente havia dito “as coisas que saem da boca e vêm do coração, e essas é que tornam o homem impuro” (Mateus 15,18). A pessoa humana no projeto de Jesus está acima de qualquer lei, qualquer preconceito. Deus deseja igualdade, fraternidade e não humilhação, divisão.

Neste sentido, a fé da mulher reconhece em Jesus o Senhor e Jesus reconhece nela um ser humano digno, capaz de ser amada e livre como qualquer outro, e não viver escravizada, mendigando atenção, buscando afeto de outros que não seja Ele.

O Senhor poderia, na sua humanidade, agir como um homem qualquer do seu tempo, silenciando a mulher, impedindo que ela se aproximasse e contasse a sua dor, mas ele rompe com os padrões da época, porque quer que as pessoas tenham vida e não morte, não os quer escravizados e alienados.

Ao implorar a Deus o seu milagre, em tom profético e de denúncia também, a mulher é atendida por Deus. Não foi fácil chegar até Jesus, não foi fácil buscar a sua dignidade e, consequentemente, da filha, mas a mulher não desistiu. Sua decisão corajosa mudou o rumo da sua vida e de sua família, mudou a história.

Todos aqueles que levaram Jesus a sério, santos ou não, não O vendo apenas como um profeta ou um curandeiro, mas como O próprio Deus, todos os que afastaram de si a ideia de uma relação bancária com o Senhor, de toma lá dá, foram capazes de mudar não o mundo inteiro, mas o seu próprio mundo, a sua história. O Senhor ama gratuitamente e é assim que Ele espera que nós saibamos amar.

Se nós quisermos transformar a nossa vida e passar a tomar decisões moldadas por Jesus, que honrem a Deus e influenciem positivamente de alguma forma a nossa realidade, também precisamos ter coragem.

Para obedecer às Escrituras, ouvir a voz do Senhor, seguir as dicas do Espírito Santo e escolher o caminho estreito, gritando ou silenciando quando preciso, é necessária muita coragem. Como disse o Papa Francisco, “a coragem é um dom do Espírito Santo” e nós a temos dentro de nós, basta acessar, como a mulher dos cachorrinhos.

Paz e bem!

 

Dinair Fonte

 

 

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