Centro Dom Vital: 100 anos de presença

Em maio de 1922, surgia no cenário brasileiro, mais especificamente na então capital federal, o Rio de Janeiro, uma agremiação que seria o ponto de encontro da intelectualidade católica do séc. XX, e que assim era definida na edição de maio da revista “A Ordem”: “Uma sociedade que se propõe única e exclusivamente a ajudar o episcopado brasileiro na obra de recatolização da nossa intelectualidade, facilitando o conhecimento das doutrinas da Igreja e dos seus ideais na prática social deste momento”.

Quando o sergipano Jackson de Figueiredo (1891-1928), juntamente com outros pensadores, como o poeta baiano Durval de Morais e o escritor Perillo Gomes, fundou, em 1921, a revista “A Ordem” e, no ano seguinte, o agora centenário Centro Dom Vital tinha muito provavelmente em mente aquelas palavras que lera na carta pastoral escrita por D. Sebastião Leme ao assumir a Sé de Olinda e que tanto o impressionaram nos primórdios de sua conversão: “Os católicos, somos a maioria do Brasil, e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política”.

Esse clamor de D. Leme uniu-se ao ardor apostólico de Jackson a partir de 1921, quando aquele foi nomeado coadjutor do então arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Arcoverde. Desde então, e a partir de 1930 como arcebispo, D. Leme tomou para si a missão de trazer para o cenário social, cultural, político e intelectual a presença da Igreja. E a fundação do CDV será o grande ambiente onde se concretizará grande parte desse empreendimento. “A fundação do Centro D. Vital é um acontecimento de grande alcance religioso e social para o Brasil” – exclamava D. Leme ao aprovar os estatutos da nova agremiação – “A todos os católicos, principalmente aos que se interessam pela restauração espiritual dos nossos intelectuais, recomendamos o Centro D. Vital”.

A escolha do patrono para o novo centro católico é significativa: D. Fr. Vital Maria de Oliveira, O.F.M.Cap., bispo de Olinda, foi, com o bispo do Pará D. Macedo Costa, o grande nome da chamada “Questão religiosa”, que na década de 1870 agitou o Império em torno do padroado e da influência da maçonaria. Ao recordar sua memória, Jackson de Figueiredo pretendia, assim, apresentar o centro como lugar também de luta pela liberdade da Igreja e do livre exercício de sua missão de ensinar.

Provisoriamente instalado na Rua São José,  35, depois passando para sua histórica sede na rua Araújo Porto Alegre, o CDV logo deu início a um intenso programa de conferências, aulas e publicações, procurando formar a consciência dos católicos para a vital importância da participação na vida social e cultural do país. Longe de interessar-se unicamente por assuntos eclesiásticos ou da vida interna da Igreja, procurava pensar o cenário político, as mudanças por que passava a sociedade e as expressões artísticas e culturais, a literatura, enfim, tudo o que pudesse formar a integralidade da pessoa humana sob o olhar do cristianismo.

Se a prematura morte de Jackson de Figueiredo, em 1928, nos privou de uma importante liderança do laicato católico, a providência logo tratou de continuar a obra com outra grande figura: trata-se de Alceu Amoroso Lima (1893-1983), o Tristão de Athayde, famoso pseudônimo com que estreara na vida intelectual, em 1919, na coluna de crítica literária de “O Jornal”. Assumindo a presidência do CDV e a direção da revista “A Ordem” logo após a morte de Jackson, permanecendo até 1967, Dr. Alceu imprimiu um novo rosto ao projeto de catolização do país, principalmente após a criação da Ação Católica Brasileira, em 1935. Figura de intensa presença na sociedade brasileira, membro de Academia Brasileira de Letras, escrevia semanalmente para grandes jornais, guiado principalmente pelo humanismo integral do filósofo católico francês Jacques Maritain, com quem mantinha contato.

Além de Alceu, outras figuras de destaque integraram as fileiras do Dom Vital: Gustavo Corção (1896-1978), autor de obras como A descoberta do Outro e Lições de Abismo, romance premiado pela Unesco, marcou sua presença como figura de grande liderança do laicato e intensa atividade na sociedade através de seus artigos em grandes jornais; o jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto (1893-1991), apaixonado defensor da democracia e dos direitos humanos, de modo especial no período da ditadura militar, tendo presidido o CDV entre 1971 e 1991; padre Leonel Franca (1893-1948), primeiro assessor eclesiástico do CDV e primeiro reitor da PUC-Rio, autor de inúmeras obras nas áreas da teologia, da filosofia e da educação; o poeta e ensaísta Jorge de Lima (1893-1953); Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), crítica literária, biógrafa e tradutora, esposa do historiador Otávio Tarquínio de Sousa, que escrevia na “A Ordem” a seção intitulada “Crônica feminina”; mais recentemente destacam-se nomes como os do filósofo e acadêmico Tarcísio Padilha,  jornalista Luiz Paulo Horta, professor Carlos Frederico Calvet da Silveira e advogado e musicólogo Ricardo Cravo Albin.

Chegando aos 100 anos o Centro Dom Vital busca ainda hoje continuar a missão de ser e servir como espaço de diálogo entre o pensamento católico e as diversas áreas do saber. Procurando como fermento na massa levedar a sociedade e o conhecimento com e Palavra de Cristo e a Fé da Igreja, assume como mote a verdade expressa nas Sagradas Escrituras: “Pois o Senhor é quem dá sabedoria; de Sua boca procedem o conhecimento e o discernimento” (Pr 2,6). Ao olhar para a história de sua presença na sociedade carioca e brasileira, percebe-se o quanto a missão do CDV continua atual e necessária, respondendo hoje aos anseios próprios do séc. XXI e convidando cada batizado a ser verdadeira presença transformadora nos diversos ambientes sociais e culturais, levando a integralidade do pensamento cristão aos mais variados espaços do conhecimento.

 

Eduardo Douglas Santana Silva, seminarista da configuração II

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