Hilário: a revelação aos pequeninos

O décimo primeiro capítulo do ‘Comentário ao Evangelho de Mateus’, de Hilário de Poitiers, apresenta uma das mais profundas reflexões patrísticas sobre o paradoxo da revelação cristã: Deus manifesta sua sabedoria precisamente àqueles que, aos olhos do mundo, não possuem prestígio, poder ou autoridade. O eixo interpretativo do bispo de Poitiers é a oposição entre os ‘sábios’ e os ‘pequeninos’ (Mt 11,25).

Os ‘pequeninos’ não constituem apenas uma categoria etária. Em Hilário, a infância torna-se uma categoria espiritual e, ao mesmo tempo, eclesial. São aqueles que renunciam à pretensão de possuir a verdade por si mesmos e se tornam capazes de recebê-la como dom. Em contraste, os ‘sábios’ representam aqueles que absolutizam a própria inteligência, permanecendo fechados à novidade da revelação. A criança simboliza, assim, não a ignorância, mas a humildade epistemológica: somente quem reconhece os limites do próprio saber pode ser introduzido na sabedoria divina. A sabedoria eterna não se comunica prioritariamente aos centros do poder religioso ou intelectual, mas àqueles cuja pobreza os torna disponíveis para acolher um dom que não pode ser conquistado. A reflexão culmina na identificação cristológica da própria Sabedoria.

Hilário interpreta a parábola das crianças na praça como uma síntese da história profética de Israel: “‘A quem compararei esta geração? É semelhante a meninos sentados nas praças, que gritam uns aos outros…’ (Mt 11,16-17). Toda essa passagem censura a incredulidade daquele povo, e nela ressoa o mesmo tom de reprovação já expresso anteriormente (Mt 3,9-10). Sendo um povo insolente, não aprenderam por meio das diversas formas de anúncio da salvação. O Senhor indica que as ‘crianças’ representam os profetas (Mt 11,16), os quais repreendiam o povo em plena sinagoga ou na assembleia pública da praça por não terem respondido, como corpo constituído, àqueles que lhes cantavam (Mt 11,17), isto é, por não terem obedecido às palavras dos profetas. Os que dançam devem ajustar seus movimentos ao ritmo daqueles que cantam. Assim também os profetas, servindo-se de uma linguagem simples, como quem fala a crianças, anunciaram a Deus e introduziram a profissão da verdadeira fé por meio da melodia de suas flautas. É isso que encontramos no cântico de Moisés, de Isaías, de Davi e dos demais profetas. Do mesmo modo, a pregação de João não os levou ao arrependimento de seus pecados, nem ao luto e à tristeza pelas faltas anteriormente cometidas (Mt 11,18)” (Hilário de Poitiers. ‘St. Hilary of Poitiers: Commentary on Matthew’. Tradução de D. H. Williams. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2012, p. 133-137, tradução nossa).

A afirmação de que “a Sabedoria foi justificada por seus filhos” oferece a Hilário a oportunidade de ultrapassar a exegese moral e afirmar uma das teses centrais de sua cristologia: “‘Mas a Sabedoria foi justificada por seus filhos’ (Mt 11,19). Isto significa que aqueles que combatem o Reino dos Céus atacam precisamente aquilo pelo qual sua fé poderia ser justificada. Eles acabam reconhecendo que a obra da Sabedoria é justa, porque ela transferiu seus benefícios dos obstinados e infiéis para aqueles que são fiéis e obedientes. Convém, porém, considerar cuidadosamente a força dessas palavras: ‘A Sabedoria foi justificada’ (Mt 11,19), expressão que o Senhor certamente pronunciou a respeito de si mesmo. Pois ele é a própria Sabedoria, não em razão de suas obras, mas por sua própria natureza (…). O Senhor declara que ele próprio é a Sabedoria, mostrando que ela lhe pertence por natureza e não como algo recebido posteriormente”.

Os milagres realizados por Cristo tornam a incredulidade ainda mais grave, pois a abundância da graça recebida aumenta igualmente a responsabilidade daqueles que recusam a fé: “‘Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres que foram feitos em vós, há muito tempo elas se teriam convertido em saco e cinza’ (Mt 11,21-22). À bênção reservada aos obedientes contrapõe-se agora a maldição destinada aos desobedientes. Era necessário que a pregação fosse dirigida, em primeiro lugar, aos judeus. Contudo, esse privilégio apenas tornou ainda mais grave a perversidade de sua incredulidade. Eles foram condenados pelo exemplo daqueles que creram, embora não tivessem presenciado prodígios extraordinários, alcançando a salvação unicamente pela fé. Em Betsaida e Cafarnaum (Mt 11,21-23), os mudos louvaram o Senhor; os cegos recuperaram a vista; os surdos ouviram; os coxos caminharam; os mortos voltaram à vida. Entretanto, a admiração diante de tão grandes milagres em nada moveu a vontade daquele povo para a fé. Bastaria apenas ouvir falar dessas obras para que fossem levados ao temor de Deus e à fé. Não somente Tiro e Sidônia, mas até mesmo Sodoma e Gomorra (Mt 11,23-24) encontraram certa atenuação para seus pecados, porque, se tivessem contemplado manifestações tão extraordinárias do poder divino, provavelmente teriam acreditado”.

Ao comentar o louvor dirigido ao Pai, Hilário apresenta um dos grandes paradoxos do Evangelho: “Naquele momento, Jesus disse: ‘Eu te louvo, Senhor, Pai do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos’ (Mt 11,25). A essa declaração acrescenta-se uma confissão digna de toda fé. Pois, embora a salvação de Israel ainda pudesse ser esperada, o Senhor não tinha outra alegria senão a de que, no futuro, a fé fosse anunciada também aos gentios. Os mistérios e o poder das palavras celestes são ocultados aos sábios e revelados aos pequeninos (Mt 11,25); não aos pequeninos de intenção perversa ou destituídos de entendimento, mas àqueles sábios que têm consciência da própria ignorância, mais do que confiança em sua própria sabedoria (cf. 1Cor 1,20)”.

A declaração de Jesus acerca do conhecimento exclusivo entre o Pai e o Filho torna-se argumento decisivo em favor da igualdade de natureza entre ambos e da plena divindade de Cristo: “Ninguém imagine que haja em Cristo algo inferior ao que há em Deus. O Senhor declara que todas as coisas lhe foram entregues pelo Pai, que ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). Ele revelará a vontade do Pai a quem a pedir. Por essa revelação, ensina que o Pai e o Filho possuem a mesma substância, manifestada no conhecimento mútuo que têm um do outro. Quem conhece o Filho conhece igualmente o Pai no Filho, porque todas as coisas foram entregues ao Filho pelo Pai (Mt 11,27). Do mesmo modo, nada existe que seja conhecido somente pelo Pai e que não tenha sido comunicado ao Filho. Tudo o que pertence ao Pai é conhecido unicamente pelo Filho. Nesse mistério do conhecimento recíproco compreendemos que nada existe no Filho que permaneça desconhecido ao Pai”.

O convite para tomar sobre si o jugo de Cristo manifesta a passagem da antiga economia da Lei para a liberdade do Evangelho, na qual a obediência nasce do amor e conduz ao verdadeiro descanso da alma: “Finalmente, ele chama para si aqueles que se encontram fatigados pelas dificuldades da Lei e oprimidos pelo peso dos pecados do mundo. Promete aliviar-lhes o trabalho e o fardo, contanto que aceitem o seu jugo (Mt 11,28-30). Isto é, devem acolher a doutrina de seus mandamentos e aproximar-se dele pelo mistério de sua cruz, porque ele é manso e humilde de coração, e assim encontrarão descanso para suas almas (Mt 11,29). Ao mostrar a suavidade de seu jugo e a leveza de seu fardo (Mt 11,30), concede aos fiéis o conhecimento de sua bondade, conhecida por ele unicamente no Pai. E que jugo pode ser mais suave? Que fardo pode ser mais leve? Por meio deles tornamo-nos dignos da aprovação divina, afastamo-nos da maldade, desejamos praticar o bem, recusamo-nos a fazer o mal, amamos todos os homens, não odiamos ninguém, alcançamos a eternidade. Não nos deixamos seduzir pelas coisas do tempo presente, nem queremos impor aos outros aquilo que nós mesmos não desejaríamos suportar (cf. Mt 7,12; Lc 6,31)”.

Hilário desenvolveu aqui uma teologia da inversão evangélica. A condenação das cidades incrédulas, a parábola das crianças na praça, o louvor dirigido aos pequeninos e o convite para assumir o jugo suave de Cristo não constituem episódios isolados, mas diferentes expressões de uma mesma economia salvífica. Os pequeninos tornam-se, assim, a imagem daqueles que permanecem fora dos mecanismos humanos de poder. São os que não decidem, não governam, não dominam o discurso público, nem ocupam os lugares de prestígio. Enquanto os sábios segundo o mundo confiam na suficiência de sua própria razão, os pequenos recebem uma sabedoria que não procede deles, mas lhes é comunicada pelo próprio Deus. A exclusão social converte-se, paradoxalmente, em possibilidade de inclusão no mistério divino. Hilário distingue cuidadosamente a falsa sabedoria, fechada em si mesma, da verdadeira inteligência, que nasce da consciência dos próprios limites. O pequeno não é aquele que nada sabe, mas aquele que sabe não bastar a si mesmo. Por isso, a revelação permanece inseparável da humildade. O conhecimento de Deus nunca é conquista da razão autossuficiente, mas participação naquele conhecimento recíproco que une eternamente o Pai e o Filho. Essa perspectiva atinge seu ápice quando Hilário identifica Cristo com a própria Sabedoria de Deus.

 

Carlos Frederico Calvet da Silveira Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio.

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