A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro viveu um momento histórico no dia 31 de maio de 2026, com a elevação da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, no Rio Comprido, à dignidade de Santuário Arquidiocesano.
A Santa Missa foi presidida pelo arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, e concelebrada pelo bispo auxiliar, Dom Roque Costa Souza, e por religiosos da Ordem dos Servos de Maria, a quem é confiada a paróquia: o prior provincial, frei Gilson Maria de Lima Freitas; o pároco e agora reitor do santuário, padre Paulo Sérgio M. Angeloni; e o vigário paroquial, frei Manuelinho Moreira José. Também estiveram presentes religiosos servitas, as irmãs Servas de Maria do Brasil e paroquianos.
Leitura do decreto
Logo no início da celebração, o prior provincial da Ordem dos Servos de Maria, frei Gilson Freitas, fez a leitura oficial do decreto de criação canônica do novo santuário, no qual se destaca que a decisão foi motivada pela profunda devoção à Bem-aventurada Virgem Maria sob o título de Nossa Senhora das Dores, amplamente difundida entre os fiéis do Rio Comprido e de diversas regiões da Arquidiocese.
O decreto também reconhece a importância histórica e pastoral da igreja, que, ao longo de décadas, consolidou-se como referência de oração, anúncio da Palavra de Deus, celebração dos sacramentos, reconciliação e acolhimento de peregrinos.
Outro aspecto ressaltado no texto é a proximidade dos 70 anos da paróquia, criada na memória litúrgica de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro de 1956, pelo Cardeal Jaime de Barros Câmara, bem como dos 90 anos da presença evangelizadora dos frades servitas no Rio de Janeiro.
Logo após a leitura, Dom Orani entregou o decreto ao pároco e agora reitor do santuário, frei Paulo, declarando oficialmente sua instalação. “Com a leitura desse decreto, declaramos criado e hoje também instalado o Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora das Dores”, afirmou o arcebispo, sob aplausos dos fiéis presentes.
Dedicação da igreja e consagração do altar
Fez parte da celebração o rito de dedicação da igreja e a consagração do novo altar, que passou a abrigar relíquias “ex ossibus” de São Peregrino Laziosi, santo de origem italiana reconhecido como padroeiro dos doentes acometidos pelo câncer e cuja devoção é amplamente difundida na paróquia.
A liturgia da dedicação evidenciou o profundo significado espiritual do templo cristão. A igreja é o lugar onde a comunidade se reúne para ouvir a Palavra de Deus, elevar suas preces e celebrar os sagrados mistérios, tornando-se uma imagem visível da Igreja edificada por Cristo com “pedras vivas”. O altar, por sua vez, é sinal do próprio Cristo, sacerdote, vítima e altar do sacrifício redentor.
Ao destacar o caráter singular da celebração, Dom Orani ressaltou que a dedicação de uma igreja e a consagração de um altar são acontecimentos únicos na história de um templo. “A dedicação de uma igreja e a consagração do altar só acontecem uma única vez. Vocês são testemunhas disso e devem conservar para a posteridade este momento histórico”, afirmou.
O rito incluiu a aspersão das paredes e dos fiéis, a unção do altar e das cruzes da igreja, a incensação e a iluminação solene do templo. Dom Orani explicou que esses sinais remetem à realidade espiritual vivida pelos cristãos. “A aspersão das paredes e do povo recorda o nosso batismo; a unção recorda que somos consagrados ao Senhor; o incenso simboliza a oração que sobe aos céus; e a iluminação da igreja nos recorda a missão de sermos luz no mundo”, destacou.
Lugar de animação missionária
Na homilia, ao destacar a Solenidade da Santíssima Trindade e o encerramento do Mês Mariano, com a Festa da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria, Dom Orani recordou que os templos cristãos existem para reunir a Igreja viva, formada pelos fiéis, em torno da Palavra de Deus e da Eucaristia.
Segundo o arcebispo, embora Deus habite no coração dos batizados, os templos dedicados ao culto possuem a missão de ser sinais visíveis da presença divina no meio da sociedade. “Somos o templo do Senhor, mas somos chamados a ter esses locais dedicados para o culto, onde a Palavra é abundantemente anunciada e onde Cristo é o centro de tudo”, afirmou.
Ao comentar a elevação da igreja à categoria de santuário, o arcebispo destacou que a nova condição amplia significativamente sua missão pastoral. “Ao declararmos santuário esta igreja, recordamos o lugar onde as pessoas vêm em peregrinação. Além do trabalho paroquial, abre-se a dimensão arquidiocesana, com toda a responsabilidade de acolhimento, orientação espiritual, celebrações e peregrinações”, explicou.
Dom Orani ressaltou que a paróquia continua exercendo sua missão territorial de evangelização, administração dos sacramentos e assistência aos fiéis, mas passa agora a assumir também uma nova responsabilidade. “No santuário se abre a dimensão arquidiocesana para que aqui as pessoas sejam alimentadas na sua vida espiritual e possam retornar às suas comunidades fortalecidas para continuar vivendo a fé cristã”, afirmou.
Dom Orani definiu ainda a identidade própria dos santuários dentro da vida da Igreja. “Santuário é lugar de animação missionária, de acolhimento dos peregrinos e de reavivamento da fé cristã”, destacou. Segundo ele, esses espaços tornam-se pontos de referência para aqueles que buscam aprofundar a vida espiritual, receber orientação, participar dos sacramentos e renovar o encontro com Deus.
Ao concluir a reflexão, o arcebispo recordou que a data passará a ser celebrada anualmente como festa própria da dedicação da igreja, preservando a memória de um momento que inaugura uma nova etapa na caminhada evangelizadora da antiga matriz, agora Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora das Dores.
Vínculo vocacional
Ao final da celebração, o bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Roque Costa Souza, expressou sua alegria pelo momento histórico e destacou sua profunda ligação pessoal com a comunidade do Rio Comprido.
Dom Roque recordou que sua história vocacional está intimamente ligada à paróquia, localizada ao lado do Seminário Arquidiocesano São José. “Minha ligação com o agora Santuário Nossa Senhora das Dores vem desde o momento do discernimento vocacional. Aqui dei os primeiros passos para ingressar no seminário, acompanhei toda a formação e, posteriormente, como reitor do seminário, mantive esse vínculo tão especial”, afirmou.
O bispo também lembrou que a primeira missa celebrada após sua ordenação episcopal ocorreu justamente na igreja que agora se torna santuário. “Foi aqui a primeira missa após a minha ordenação episcopal. É uma alegria muito grande participar deste momento tão significativo para esta comunidade”, destacou.
Outro ponto destacado por Dom Roque foi a relação histórica de Nossa Senhora das Dores com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, da qual é padroeira. Ao recordar sua atuação como capelão da corporação, Dom Roque refletiu sobre a atual realidade da cidade e a missão consoladora da Virgem Maria. “Queremos apresentar à Mãe das Dores as dores da nossa cidade, marcada tantas vezes pela violência e pelo sofrimento. Mas nem isso impede a ação de Deus, porque o amor de Deus é muito maior e está sempre próximo de nós”, afirmou.
Ao concluir sua mensagem, o bispo recordou o papel de Maria na vida da Igreja e incentivou os fiéis a seguirem seu exemplo de fidelidade a Cristo. “Maria sempre aponta para seu Filho Jesus. Que possamos escutá-Lo como ela nos ensina nas Bodas de Caná: ‘Fazei tudo o que meu Filho vos disser’. Que nunca falte entre nós o vinho melhor da alegria, da paz, do amor, da fraternidade e da solidariedade”, declarou.
Construir o Reino de Deus
Na sua mensagem, o pároco e agora reitor do santuário, frei Paulo Angeloni, expressou sua gratidão aos fiéis, aos religiosos e aos responsáveis que contribuíram para a concretização desse momento histórico para a comunidade do Rio Comprido.
O religioso recordou sua longa trajetória na paróquia, onde chegou em 1999 e assumiu como pároco em 2005. Ao agradecer aos paroquianos, destacou que a conquista do santuário é fruto da perseverança e da dedicação de toda a comunidade. “Tudo isso foi possível porque vocês aqui continuam firmes. Quanta coisa nós superamos, quanta coisa nós vivemos nesta paróquia e quanto ainda nos desafia o Reino de Deus neste bairro”, afirmou.
Frei Paulo também ressaltou que a espiritualidade de Nossa Senhora das Dores sempre inspirou a missão da comunidade. “Aprendemos com ela as dores de cada dia e os desafios de cada dia. É dela que aprendemos a estar aos pés das infinitas cruzes da humanidade e a servir como ela serviu seu Filho até o último suspiro”, disse.
O reitor lembrou ainda o apoio recebido de diversas pessoas ao longo do processo de criação do santuário e, ao dirigir-se ao arcebispo, frei Paulo manifestou profundo reconhecimento por sua atuação pastoral. “O senhor tem um coração de irmão, coração de pai. Ninguém que vem ao senhor sai sem uma resposta. É um pastor incansável, presente em toda a Arquidiocese e sempre próximo do povo de Deus”, declarou.
O religioso também destacou a importância da criação do santuário para a Ordem dos Servos de Maria. “Sempre me incomodou que nós, no Brasil, não tivéssemos um santuário mariano dedicado àquela que é a padroeira principal da nossa Ordem. Hoje essa graça aconteceu”, afirmou.
Segundo frei Paulo, a nova condição despertou renovado entusiasmo na comunidade. “Desde que começamos a sonhar com este projeto, esta comunidade tomou uma nova vida, um novo entusiasmo, uma vontade maior de continuar construindo o Reino de Deus e um carinho ainda maior por Nossa Senhora”, ressaltou.
Nova etapa na caminhada de fé
Também no final da celebração, foi lida uma mensagem do prior geral da Ordem dos Servos de Maria, frei Sérgio M. Ziliani, feita pelo prior provincial, frei Gilson Freitas. Na carta, o prior geral manifestou gratidão a Dom Orani pela criação do santuário, classificando o acontecimento como um marco na história da comunidade e da presença dos servitas no Rio de Janeiro. “Esse momento histórico marca uma nova e abençoada etapa na caminhada de fé desta comunidade”, afirmou o prior geral.
Na mensagem, frei Sérgio destacou que a decisão reconhece a missão evangelizadora desenvolvida ao longo de sete décadas pelos frades servitas e fortalece a vocação do templo como espaço de acolhimento, peregrinação e renovação espiritual. Segundo ele, a elevação a santuário representa também um sinal do cuidado pastoral da Arquidiocese com os fiéis que buscam crescer na fé sob a proteção de Nossa Senhora das Dores.
Ao recordar os 90 anos da presença da Ordem dos Servos de Maria no Rio Comprido e o jubileu dos 300 anos da canonização de São Peregrino, celebrado neste Ano Santo, frei Sérgio destacou a importância do novo santuário para a vida da Igreja. “Que este santuário seja um verdadeiro centro de evangelização, um lugar de encontro, consolo, restauração e cura para todos os que aqui acorrem sob a proteção de Nossa Senhora das Dores e São Peregrino”, escreveu.
Espaço de acolhimento, oração e renovação da fé
Antes da bênção final, Dom Orani destacou a importância da nova missão confiada à comunidade e ressaltou que a criação do santuário é fruto da caminhada de fé do povo de Deus e da ação do Espírito Santo.
Segundo o arcebispo, a elevação da igreja não nasceu de um projeto administrativo, mas da própria vida da comunidade e da devoção dos fiéis. “Sabemos que isso é fruto e consequência da ação do Espírito Santo, que vai conduzindo a nossa vida e nos ajudando a dar os passos necessários para corresponder aos seus apelos”, afirmou.
Dom Orani destacou que o novo santuário possui uma identidade fortemente mariana, confiada aos frades servitas, cuja missão será promover cada vez mais a devoção a Nossa Senhora das Dores e acolher os peregrinos que visitarem o local. “É um santuário mariano confiado a uma congregação mariana. Tem a grande missão de fomentar a peregrinação a Nossa Senhora das Dores e acolher todos aqueles que aqui chegam em busca de fortalecimento espiritual”, disse.
Outro aspecto destacado foi a presença das relíquias de São Peregrino no novo altar do santuário, fortalecendo a devoção ao santo conhecido como padroeiro dos enfermos acometidos pelo câncer. Segundo Dom Orani, essa característica amplia ainda mais a vocação espiritual do local, unindo a devoção mariana à espiritualidade de São Peregrino.
O arcebispo também incentivou o fortalecimento das peregrinações aos diversos santuários da Arquidiocese do Rio de Janeiro, incluindo o recém-criado Santuário Nossa Senhora das Dores. Para ele, esses espaços ajudam a manter vivas as expressões da religiosidade popular e favorecem o encontro dos fiéis com Cristo.
Carlos Moioli