Religião, Igreja e eleições… O que penso!

“Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,13-17)

 

Magistralmente, Jesus calou os líderes judaicos com as célebres palavras: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Com isto, Jesus estabeleceu a importante questão de que o cristão é cidadão de dois mundos: o terrestre, com todas as obrigações a ele inerentes, e ao mundo celeste com todas as implicações que isto acarreta.

O cristão não pode viver alienado no mundo, pois é sal e luz, vivendo para fazer uma diferença saudável na comunidade; mas sem se esquecer de sua cidadania celestial, atuando como embaixador de Deus em meio a conjuntura na qual está inserido.

Religião e política não podem ser separadas; mas Igreja e Estado podem e devem. A Igreja, por si, é política, porque persegue a realização do bem comum. Não, no contexto partidarista, porque o partido é sempre limitado e prejudica a unidade. Ser partidário, para a Igreja, significa dividir os cristãos, porque todos os cidadãos têm plena liberdade para escolher a sua própria opção partidária. Isto é um sentimento inerente ao ser de cada um, exercendo sua cidadania. 

Por outro lado, a Igreja tem a obrigação de formar bem os seus fiéis na responsabilidade política, no compromisso com um voto consciente e responsável. Não é missão da Igreja apoiar esse ou aquele candidato, esse ou aquele partido. Tem sim, que orientar na escolha de bons candidatos, com qualidade ilibada, responsáveis e comprometidos com a justiça e o bem da população. 

Não faz bem para os cristãos um ministro da Igreja, seja bispo, padre ou diácono, ser candidato a cargos públicos. Existe até uma proibição para isto, mas incentiva os cristãos comprometidos, bem formados moral e eticamente, com capacidade política a se filiarem nos diversos partidos, podendo, desta forma, contribuir com o bem da nação, ou do estado, ou do município. Não faz bem para os cristãos um ministro da Igreja, seja bispo, padre ou diácono, defender um ou outro candidato. 

O mundo da política tem desabonado o verdadeiro sentido da palavra, porque se tornou espaço privilegiado de corrupção, de corporativismo e negação do verdadeiro objetivo, que é a defesa da vida, do estado e da dignidade das pessoas. Um candidato católico não representa a Igreja, mas precisa praticar os ensinamentos que veem da Palavra de Deus, sendo honesto, justo e verdadeiro. 

Muitas pessoas comentam que a Igreja Católica Apostólica Romana deveria ter engajamento partidário e que se formasse uma bancada católica no Legislativo para defender seus interesses. Muitos outros são contrários a isto, dizendo que a missão da Igreja é apenas espiritual. Promover determinado partido ou uma bancada católica pode prejudicar uma visão uniforme da realidade e dividir as pessoas. 

O momento político brasileiro tem sido muito preocupante, com possibilidade do uso da força e da violência sem precedentes. Estamos assistindo e convivendo com as polarizações ideológicas, agressões verbais desonestas, as fake news, que não ajudam na construção de um Estado brasileiro democrático e justo. Com isto, todos sofrem as consequências de uma política mal conduzida. 

Uma exortação tão clara e direta é atualíssima, se, como cristãos, introjetarmos um olhar sobre a política e nossa relação com esse aspecto de nossa vivência comunitária e humana. A política no Brasil, não por definição, mas por constatação histórica e social, é vinculada às práticas dissimuladas, volúveis, personalistas e incoerentes. O sim pode ser sim, pode ser não ou pode ser talvez. O não pode ser não, pode ser sim ou pode ser talvez. O que se diz pode não ser o que se expressa, e o que se expressa não contém o que se diz. A “coerência” vivida na política segue uma definição própria, específica e, às vezes, deturpada. Sobre a nossa política, uma figura de relevância na história recente afirmou: “Na política, o feio é perder”.

A Igreja exorta os fiéis “a cumprirem fielmente os seus deveres temporais, deixando-se conduzir pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade aqueles que, pretextando que não temos aqui cidade permanente, pois demandamos a futura, creem poder, por isso mesmo, descurar as suas tarefas temporais, sem se darem conta de que a própria fé, de acordo com a vocação de cada um, os obriga a um mais perfeito cumprimento delas”. Queiram os fiéis “poder exercer as suas atividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os esforços humanos, familiares, profissionais, científicos e técnicos, com os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus”.

O que falta no mundo e neste processo político, na minha humilde opinião, é respeito! O respeito, junto de outros valores éticos, é o que aprendemos desde nossa infância e é aquilo que se torna primordial por toda a nossa vida. São princípios que nos guiam e que moldam nosso caráter, a ponto de ensinar para as próximas gerações e assim por diante. Como são importantes nossos princípios!

E é com essa frase de Antoine de Saint-Exupéry, um piloto do século XX, que desejo provocar a seguinte essa reflexão: Se todas as pessoas tivessem o respeito (vinculado à empatia), nosso mundo seria como é atualmente?

Que possamos, também, fazer um incentivo: Vamos praticar o respeito ao nosso redor, em nossa forma de falar e tratar as diferentes pessoas que encontramos pelo caminho, pois como o próprio Antoine de Saint-Exupéry acreditava, isso é capaz de transformar nossa sociedade em muitos aspectos.  O que é próprio da democracia é a convivência pacífica com o diferente.

Não sei e não me interessa em quem você irá votar! Exerça sua cidadania e como católico coloque em prática os valores e princípios que a Igreja lhe transmitiu. Escolha bem o candidato no qual você irá votar! Eu apenas exijo respeito!

 

Monsenhor André Sampaio de Oliveira

Mestre e doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma

Formado pela Pontifícia Academia Eclesiástica – Escola Diplomática da Santa Sé

 

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