São Sebastião é carioca

São Sebastião deve ser o mais carioca de todos os santos! Pense num sujeito boa praça, sempre disposto a ajudar as pessoas, resignado, caridoso, valente, amigo fiel e autêntico, que trata a todos como irmãos; enfim, um típico carioca. E aqui somente destacamos algumas das prováveis muitas qualidades deste santo um pouco francês, um pouco milanês, um pouco romano e – por que não? – um pouco carioca.

São Sebastião nasceu em Narbonne (França), mas muito cedo se radicou em Milão, terra de sua mãe. Converteu-se ao cristianismo e ingressou no exército por uma necessidade religiosa e existencial: encorajar os cristãos perseguidos diante das torturas, o que lhe conferia sentido à vida, agora cristificada. O seu caráter e estilo pessoal atraíram o favor dos imperadores Diocleciano e Maximiniano, que o fizeram capitão da Guarda Pretoriana, ou seja, a guarda pessoal do Imperador, porém sem que fosse de seu conhecimento tratar-se Sebastião de um cristão. Entretanto, este desconhecimento não se estendeu por muito tempo, pois como ascendia na carreira militar, Sebastião logo fora denunciado por seus companheiros ao Imperador Diocleciano sob a acusação de ser benevolente para com os prisioneiros cristãos. Isto levou Diocleciano a julgá-lo como traidor do Império e determinar sua execução por tiros de flechas, que se tornariam símbolo de sua iconografia tradicional. Dado como morto, seu corpo fora lançado num rio, mas Santa Irene o socorreu. Recuperado, Sebastião corajosamente apresentou-se diante de Diocleciano, protestando e pedindo paz para os cristãos. Em resposta, o imperador ratificou sua condenação e ordenou que fosse morto a pauladas. Depois disso, seu corpo fora jogado no esgoto público de Roma. Agora, é Santa Luciana quem recolhe seu corpo e lhe prepara digna sepultura nas catacumbas que hoje recebem seu nome.

A personalidade, o caminho de cruz e o heroísmo de São Sebastião trazem muitas congruências com o jeito de ser e de viver do carioca.

Nestes últimos dias, foi divulgada uma pesquisa segundo a qual o Rio é a segunda capital mais rude do Brasil. Foram considerados quesitos como falar alto em público, má educação no trânsito, som alto, dentre outros. Mas esta lamentável realidade não obscurece o brilho do carioca e seu jeito cativante de ser.

O carioca é simpático, acolhedor, caridoso, amigo, leal, corajoso, gosta de chamar a todos de irmãos, dentre tantas outras qualidades, mesmo tendo que lidar diariamente com situações extremamente difíceis diante das quais se mostra resignado e bem-humorado, de modo a ainda encontrar forças para fazer piada da sua própria desgraça.

Apesar de ser um santo do século III, São Sebastião bem que podia ter nascido no Rio de Janeiro. Mas se não é carioca de nascença, é de coração. E penso que todo carioca traz na alma um pouco da personalidade de São Sebastião. Basta observarmos como o carioca é pronto em ajudar quem sofre, nem que seja com uma palavra de conforto, assim como Sebastião confortava e ajudava os cristãos perseguidos. É sempre impressionante, por exemplo, como o carioca se mobiliza em campanhas sociais para ajudar vítimas de enchentes, deslizamentos e tantas outras tragédias que anualmente maltratam nossa gente.

Se São Sebastião foi alvejado por tiros de flechas, não raramente cariocas são alvejados por tiros de bala perdida, e quando não trazem esta marca em seus corpos, trazem-na nas fachadas de suas casas ou prédios. Quem sobrevive, é vida que segue com coragem e sem mágoa, mas sob protesto, assim como aconteceu com Sebastião.

Aliás, os tiros parecem já serem patrimônio carioca, haja vista que desde 1565, ano em que nossa cidade foi fundada, os tiros de flechas já furavam as paredes de palha de nossas casas e igrejas. Pois assim diz o padre Serafim Leite: “Em 1565, fundou o padre Gonçalo de Oliveira uma casa-igreja de evocação de São Sebastião na cidade que Estácio de Sá fundou à sombra do Pão de Açúcar. Era de palha e, algumas vezes, a furaram as flechas dos tamoios” (Cf. História da Companhia de Jesus no Brasil, vol. 1, pág. 392).

Se por um lado Estácio de Sá, ao batizar a cidade com o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, quis homenagear o jovem rei português Dom Sebastião, desaparecido em batalha no Marrocos (1578), quis também colocá-la sob a proteção do glorioso santo mártir do século III, talvez pressentindo que seus futuros habitantes precisariam se inspirar em São Sebastião para vencer heroicamente as dificuldades que todos os dias se abateriam sobre o nosso povo: violência, intolerância religiosa, pobreza e injustiças de toda ordem.

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não foi fundada no dia de seu padroeiro (20/01), assim como ocorre com a cidade de São Paulo, fundada em 25 de janeiro, dia da festa litúrgica da Conversão de São Paulo, Apóstolo. Mas o feriado de São Sebastião é o grande dia da cidade e dos cariocas. Os festejos do santo padroeiro atravessam pouco mais de quatro séculos e meio acompanhando sucessivas gerações, as transformações da cidade, que se tornou uma grande metrópole, e imprimindo identidade cultural e religiosa na alma dos cariocas, o que denota uma profunda relação entre a comunidade e seu padroeiro. Os festejos de São Sebastião, portanto, vêm de nossas origens e são eloquente testemunho da história e heroísmo de nosso povo.

Na tradição cristã, São Sebastião é invocado contra as guerras, pestes e fome, isto porque, desde o século IV, são inúmeros os relatos de comunidades que alcançaram paz, cura e prosperidade em momentos difíceis de sua historiografia.

Guerras, pestes e fome são realidades que também nos acompanham ao longo de nossa história, desde a Batalha das Canoas, que por intercessão de São Sebastião culminou com a expulsão dos franceses invasores nestas terras, até os dias atuais, em que a insegurança urbana coloca todos os dias a vida do carioca no limiar entre a vida e a morte. As pestes também são vencidas por intercessão do santo padroeiro, se no século XIX e início do século XX nós tínhamos as epidemias de febre amarela e na segunda metade do século XX tínhamos a cólera e a dengue, nestes primeiros anos do século XXI, a dengue continua a ser um risco e ainda temos a pandemia da Covid-19, que já nos ceifou tantas vidas e caminha para o seu terceiro ano. E a fome é algo sempre presente entre nós, o próprio Senhor Jesus assim profetizou: “Pobres sempre tereis entre vós” (Mc 14, 7). Porém, a mendicância e as famílias que diariamente têm dificuldades para se alimentar apelam à nossa caridade cristã.

Que São Sebastião interceda por todos os cariocas que fazem esta cidade ser Maravilhosa. Pois, a maravilha do Rio pode até estar em suas belezas naturais, na sua arquitetura e em tantas coisas belas que temos, mas está, sobretudo, no coração deste povo solidário e heroico que luta e sobrevive na esperança de dias melhores.

 

Padre Valtemario S. Frazão Jr.

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