Um episcopado a serviço da educação brasileira e católica

Entre os anos de 2016 e 2019, por designação do arcebispo Cardeal Orani João Tempesta, e após quatro anos de serviços prestados ao Tribunal Eclesiástico, onde atuei como notária juramentada, tive o privilégio de integrar a competentíssima equipe de jornalistas do Sistema de Comunicação da Arquidiocese do Rio, órgão do então Vicariato Episcopal para a Comunicação Social e Cultura.

Educadora por formação (Letras) e possuindo uma não pouca experiência com a doutrinação ideológica praticada, há décadas, nas instituições de ensino superior, mormente nas universidades públicas, não tardou para que eu manifestasse ao editor-chefe do Jornalismo ArqRio, nosso querido Carlos Moioli, o meu interesse pelas pautas relacionadas à Educação.

A Divina Providência fez convergirem essas disposições com a urgência de se dar respostas à crise das instituições católicas de ensino; esta não só do ponto de vista econômico, embora, na prática, fosse a questão mais preocupante, dado o aumento do número de escolas católicas fechando as portas, notadamente, devido a crises financeiras, geradas seja por transferências, seja pela diminuição de matrículas de alunos novos e, consequentemente, pela perda de arrecadação.

O empobrecimento das famílias, durante a recessão econômica de 2016, a pior já ocorrida no país[i], obrigou muitos pais a transferirem seus filhos para colégios que lhes oferecessem melhores condições para honrarem com os pagamentos das mensalidades; em casos mais críticos, muitos pais acabaram optando, mesmo forçosamente, pela rede pública de ensino. Todavia, não somente a questão financeira motivava a migração dos alunos, havia também (e é cada vez mais crescente) uma parcela muito significativa do laicato desejosa de poder oferecer aos filhos educação de qualidade nos colégios católicos.

Temas como sexualização precoce, ideologia de gênero, pautas LGBTQI+, aborto, descriminalização das drogas, analfabetismo funcional, interferência no direito dos pais na educação dos filhos, ridicularização do valor e do papel preponderante da família na formação moral e religiosa das crianças e jovens; a consequente confrontação com a autoridade dos pais, por parte de não poucos educadores; também a crescente e sistemática desconstrução da família tradicional, como resultado de uma pedagogia promotora do arrefecimento dos valores morais e cristãos, entre outros abusos “educacionais”, começaram a incomodar o laicato e o clero arquidiocesanos mais esclarecidos a respeito desses temas e que, por isso mesmo, são mais atentos e mais sensíveis a essas pautas, inclusive, no que respeita às políticas públicas engendradas e habilmente introduzidas nos Planos Nacionais (PNE) e Municipais (PME) de Educação, no âmbito dos Três Poderes, nas três esferas: União, estados e municípios.

Exemplo disso foi o apelo do arcebispo a uma atuante participação dos educadores católicos e da Pastoral da Educação nas discussões do PME ocorridas em março de 2016. O cardeal insistia muito para que as escolas católicas, como parte da rede nacional de educação, se apropriassem, de fato, do Plano Municipal, uma vez que isso representaria a presença da Igreja na construção desse documento[ii]. E o povo atendeu ao chamado do pastor: educadores, pais e lideranças arquidiocesanas lotaram as galerias e marcaram presença na tribuna da Câmara Municipal, com o valioso apoio do então vereador Cláudio Castro, hoje governador do estado.

Por outro lado, começava a ascender um ramo cada vez mais numeroso de fiéis leigos interessados em escolas genuinamente católicas; que restaurassem e oferecessem uma educação desvinculada dos vieses ideológicos progressistas e secularizantes, que, a galope, contagiam os projetos pedagógicos de escolas públicas e particulares, e os quais, lamentavelmente, não raro, incidem também nas escolas católicas.

Diante desse cenário e dos seus riscos para as futuras gerações do rebanho que ora lhe está confiado, não menos sensível ao problema, demonstrou-se efetivamente atuante o arcebispo, no quanto dele exigiu o zelo pela educação católica, na linha de seus predecessores, sobretudo os cardeais Dom Sebastião Leme e Dom Eugenio Sales.

Motivado por leigos, padres, religiosos, e reunindo todo o governo arquidiocesano em torno dessa causa, em especial, os bispos auxiliares Dom Antonio Augusto Dias Duarte e Dom Paulo Alves Romão, os quais, à época (2018), eram bispos referenciais da Pastoral Familiar, da Juventude, da Educação e do ensino religioso, e também o bispo auxiliar emérito Dom Karl Joseph Romer, diretor do Instituto Superior de Ciências Religiosas e secretário emérito do Pontifício Conselho para a Família, o arcebispo abriu de par em par os espaços da arquidiocese, nas paróquias, no Centro de Estudos do Sumaré, e, sobretudo, no Edifício São João Paulo II, a fim de oferecer a atualização pedagógica de um sem número de interessados, entre educadores e pais (católicos ou não), bispos de todo o país, seminaristas e formadores, através de congressos, simpósios, seminários etc., que eram amplamente divulgados em programas da Rádio Catedral, da WebTV Redentor e registrados em reportagens do jornal “Testemunho de Fé”[iii].

Com maior recorrência, iniciaram-se os ciclos de Formação Continuada, com encontros de formação e espiritualidade em que são tratados os grandes temas e subtemas ligados à educação, ciência e fé, mormente à luz da escolástica católica, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja (DSI), além do quanto de melhor, nas últimas décadas, a intelectualidade católica tem produzido, dentro e fora do âmbito acadêmico, através de grandes expoentes que vêm prestando um valioso serviço à sociedade e à Igreja, exercendo papel relevantíssimo no atual cenário sociocultural e sociopolítico, especialmente nas audiências públicas, cujos temas sob constante ataque político-ideológico são: a Educação e a Família; e, vale lembrar: expoentes também quando da discussão de projetos de lei e de políticas públicas que envolvem os outros temas anteriormente citados.

A título de ilustração destaco dois acontecimentos emblemáticos, sendo o primeiro deles a segunda edição do Congresso da Educação Católica, promovido pelo Instituto Sophia Perennis, com o apoio da Arquidiocese do Rio de Janeiro e do Instituto Antonio Royo Martin, em 2018. O congresso foi organizado pelo Prof. Felipe Nery Martins Neto, presidente do Observatório Interamericano de Biopolítica e do Instituto Sophia Perennis, com o objetivo de despertar, tanto nos pais como nos educadores, uma reflexão para se perceber o declínio da educação hoje. No que respeita à educação católica, segundo Nery, “a escola católica tem, na sua identidade, a missão de levar a criança à real finalidade da educação, que é encontrar a verdade”, disse à época o renomado professor.

Com ele participaram ainda: o jurista, professor, escritor e também membro do Instituto Sophia Perennnis, Rodrigo Monteiro Gurgel Santos, que abordou o tema “O jovem e a literatura” e fez uma séria exortação aos pais: “Se vocês não acompanharem o que seus filhos leem, vão entregar nas mãos dos professores, das escolas, o que há de mais precioso na vida deles: a formação moral. E a escola de hoje não está preocupada com isso”, assegurou Gurgel. Além destes, participaram também o professor Thomaz Giuliano e o maestro Dante Mantovani.

Outra participação de peso neste congresso foi a do padre José Eduardo de Oliveira, da Diocese de Osasco (SP). Padre José Eduardo recordou o ensinamento do grande Santo Tomás de Aquino, para quem o desenvolvimento intelectual se dá em três operações fundamentais que, por sua vez, constituem a arte de ensinar; são elas: a leitura (em profundidade), a meditação (reflexão sobre o que o intelecto absorveu da leitura, quando então ocorre a experiência da verdade) e a contemplação (a percepção da realidade de que há uma ordem que dá consistência profunda às verdades acumuladas): “Este foi o modelo que produziu as mentes mais geniais da história da Humanidade”, ressaltou o padre José Eduardo.

Anfitrião do evento, Cardeal Tempesta proferiu a palestra “Contribuição da Igreja Católica para a Educação no Brasil” e, na oportunidade, recordou o relevantíssimo papel e legado dos jesuítas, que, chegados em 1549, deram início ao processo educativo no país: “Um dos expoentes desse trabalho pioneiro foi São José de Anchieta, que justamente por isso ficou conhecido como Apóstolo do Brasil”, lembrou D. Orani. E passando pelos outros momentos históricos da educação em nosso país, desde o período Pombalino até a Proclamação da República, Dom Orani aportou ao momento atual por que passa a educação brasileira, enfatizando os desafios enfrentados pela Igreja e pelos educadores católicos:

“Com a separação entre Igreja e Estado, conforme a Constituição Republicana de 1891, promoveu-se uma laicização da sociedade, e foi retirado o ensino religioso do currículo das escolas. Esses desafios persistem e até se agravam na atualidade, sob a roupagem de novas ideologias. A Igreja caminha no aprendizado de conviver com as divergências dos novos tempos, mas conserva vivo seu testemunho de que somente uma educação integral forma o homem segundo a sua dignidade”, asseverou.

Animado pela riqueza e gravidade dos tópicos levantados durante o congresso e zeloso por oferecer uma resposta pastoral à altura, cria o Vicariato Episcopal para a Educação, em 15 de outubro daquele mesmo ano (Dia dos professores e de Santa Teresa d’Avila, doutora da Igreja) e com a missão de acompanhar e evangelizar no ambiente da educação. O vicariato está assim constituído:

Bispo referencial: Dom Paulo Romão

Vigário episcopal: Pe. Thiago Azevedo

Vigário episcopal adjunto: Pe. Jorge Luiz Vieira

Assessor eclesiástico da Pastoral da Educação: Pe. Wagner Augusto Moraes dos Santos

Assessor eclesiástico do Setor Universidades: Pe. Douglas Navarro

Como desdobramento do congresso, dos encontros de formação continuada e da criação do Vicariato para a Educação, deu-se um maior engajamento e uma mais efetiva mobilização pastoral do arcebispo, desta vez, em torno do tema “Igreja e escola”, escolhido para o Curso Anual dos Bispos, realizado no Centro de Estudos no Sumaré, em fevereiro do ano seguinte, 2019. O evento trouxe novamente à cena, entre os palestrantes, o professor Felipe Nery, que, abordando os “Problemas do modelo de educação existente no Brasil: qual perfil de pessoas estamos formando?” e as “Possibilidades para as escolas paroquiais atualmente”, esclareceu os bispos participantes acerca da problemática e da urgência de ações pastorais concretas e incisivas nesse âmbito.

A relevância dos temas, aliada à influência do cardeal, atraíram para esse evento, também, a presença do então secretário executivo adjunto do Ministério da Educação, Eduardo Miranda Freire de Melo, que, na ocasião, se pronunciou nestes termos: “A Igreja Católica e as demais Igrejas cristãs cumprem um papel muito importante na disseminação e no formato da educação. A tradição da educação no Brasil passa pela educação cristã, a partir de seus fundamentos, uma vez que o próprio Jesus disse: ‘Ide e ensinai a todos os povos’. O secretário também estendeu suas considerações ao ensino religioso confessional, ressaltando a importância e que não deve ser ignorado “por uma questão política e ideológica”, disse o secretário.

Naquele mesmo mês, poucos dias depois, Dom Orani promoveria, através do recém-criado Vicariato Episcopal para a Educação, o I Simpósio Arquidiocesano da Educação Católica, que teve lugar no Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, no Catete, com o tema: “Igreja e Educação no século XXI”. Foram palestrantes nesse evento, o professor Felipe Nery, o bispo referencial para a educação, Dom Paulo Alves Romão, o então monsenhor Antônio Luís Catelan Ferreira, membro da Comissão Teológica Internacional e, hoje, bispo auxiliar; estiveram presentes ainda: o vigário episcopal, padre Thiago Azevedo, e o vigário episcopal adjunto, padre Jorge Luiz Vieira da Silva, além dos assistentes eclesiásticos do vicariato: padre Wagner dos Santos e padre Douglas Navarro.

O simpósio levou os presentes à reflexão de dois documentos da Igreja sobre a educação católica: a Carta Encíclica sobre a Educação Cristã “Divini illius magistri”, do Papa Pio XI, e a Declaração “Gravissimum Educationis”, do Papa São Paulo VI. A palestra do bispo referencial não deixava dúvidas quanto ao envolvimento sempre mais crescente do cardeal com o tema da educação. Dom Paulo Romão trataria dos “objetivos e metas da educação na Arquidiocese do Rio de Janeiro”.

Tais “objetivos e metas” deram a conhecer, portanto, a mão e o traçado cardinalícios para o simpósio e também para o vicariato recém-criado. É o que se depreende, também, das palavras do vigário episcopal, naquele contexto: “Queremos conhecer as linhas educacionais do nosso tempo, bem como os valores educacionais defendidos pela Igreja. Entendemos que um educador católico não pode negligenciar a fé, por causa da ciência, nem negligenciar a ciência por causa da fé”, pontuou padre Thiago, na ocasião, ao jornal “Testemunho de Fé”.

Na homilia, Dom Orani ratificou: “Temos uma missão muito importante. Nesse dia, falamos de forma específica sobre a educação católica, porém o vicariato é destinado à educação como um todo, sendo presença da Igreja na caminhada educacional de nosso município”, afirmou.

Neste ano de 2022, Dom Orani impulsiona, mais uma vez, a Arquidiocese do Rio de Janeiro a um maior comprometimento com a educação. Com o retorno das atividades paroquiais, superado o confinamento do período pandêmico, Cardeal Tempesta protagonizou, recentemente, a implementação de um projeto que, se não realiza de todo, ao menos “esbarra” no que fora proposto em 2019, no Curso Anual dos Bispos, no que tange a “possibilidades para as escolas paroquiais atualmente”.

Refiro-me à parceria entre a Arquidiocese do Rio, através do Vicariato Episcopal para a Educação, e a Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Fundação Cecierj) – órgão vinculado à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti)) – para a implantação de polos de pré-vestibular social nas paróquias. O Acordo de Cooperação foi celebrado no dia 28 de março entre o arcebispo do Rio de Janeiro e o presidente da Fundação Cecierj, Rogerio Pires.[iv] Estavam também presentes dois aguerridos representantes do laicato católico do Regional Leste 1, no âmbito do poder legislativo estadual e federal, em defesa da Vida, da Família e da Educação, respectivamente: o deputado Márcio Gualberto e a deputada Chris Tonietto.

No momento, 16 paróquias fazem parte do projeto, como polos de distribuição de material didático e de aulas on-line. E sobre este novo gesto pastoral em benefício da educação em nossa arquidiocese, Dom Orani manifestou seu entusiasmo pelo fato de que a parceria vai ao encontro da Campanha da Fraternidade deste ano, a qual teve como tema “Fraternidade e Educação”. Para ele, a educação faz parte das preocupações da Igreja, daí estar presente nos documentos, sobretudo, os pontifícios. Em um certo sentido, profeticamente, o cardeal antecipou-se e antecipou, com contornos muito peculiares da tradição escolástica arquidiocesana, o que, a posteriori, o Papa Francisco desejaria fomentar em toda a Igreja, ao propor o “Pacto Educativo Global”.

Como é possível constatar, o episcopado e os 13 anos de arcebispado de Dom Orani, no Rio de Janeiro, muito têm contribuído para o debate e a revisão pedagógica do ensino brasileiro, para a desconstrução dos paradigmas que desmantelaram a educação no Brasil, nos últimos 50 anos, pelo menos. Em contrapartida, tem viabilizado ações pastorais muito transformadoras e, por isso mesmo, exemplares e com alcance para além dos limites geográficos da Arquidiocese do Rio de Janeiro, dada a popularidade que possui e a influência que exerce, além-fronteiras, o Cardeal Tempesta.

Obviamente, também pela relevância, abrangência e profundidade com que os assuntos são abordados, nos eventos promovidos no âmbito arquidiocesano, e graças à notoriedade e o nível de excelência dos palestrantes, que despertam interesse e favorecem a divulgação e transmissão dos eventos, pelas redes sociais, e mais notadamente, pelas mídias arquidiocesanas. Todavia, nada disso seria possível tampouco visível, não fossem as disposições e provisões de Dom Orani Tempesta, com sua já notória e peculiar missionariedade, aplicada também, como vemos, em prol da educação brasileira e católica.

 

Flávia Muniz

Flávia Auxiliadora Alves Muniz é mestre e doutora em Letras Italianas (UFRJ), jornalista e tradutora. Foi redatora do jornal “Testemunho de Fé”. Como leiga católica é membro da Legião de Maria. É ex-diretora acadêmica do Consórcio Cederj, da Fundação Cecierj e, atualmente, presta assessoria à presidência, junto à Diretoria de Polos Regionais do Cederj.

 

 

 

[i] In: https://g1.globo.com/economia/noticia/pib-brasileiro-recua-36-em-2016-e-tem-pior-recessao-da-historia.ghtml

[ii] Jornal Testemunho de Fé, n. 944, p. 4.

[iii] Edições e respectivas páginas do Jornal Testemunho de Fé referenciadas neste artigo: n. 944 (p. 4). n. 1053 (pp 12-13), n. 1096 (pp. 7; 12-14). Há diversas outras reportagens sobre o tema e que podem ser acessadas pelo link: http://digital.maven.com.br/pub/otestemunhodefe

[iv] In: https://arqrio.org.br/arquidiocese-e-cecierj-firmam-parceria-pela-implantacao-de-polos-de-pre-vestibular-nas-paroquias/

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