Jornada Mundial de Oração pela Santificação dos Padres

Neste ano da graça de 2026, ao celebrarmos com profundo júbilo a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja nos convida mais uma vez a mergulhar no mistério insondável do amor divino, um amor que se deixou transpassar na cruz para a nossa salvação. É sob a luz deste Coração manso e humilde que vivenciamos, nesta mesma data, a Jornada Mundial de Oração pela Santificação dos Presbíteros. Trata-se de um momento de singular importância para a nossa caminhada eclesial, pois nos recorda que o ministério sacerdotal não nasce de uma vontade humana ou de uma ambição terrena, mas brota diretamente do peito aberto do Cristo Redentor.

Do alto do Corcovado, de braços abertos sobre a nossa metrópole, o Senhor nos ensina que o verdadeiro poder é o serviço e que o verdadeiro pastoreio é a entrega total da própria vida pelas ovelhas. Por isso, a santificação daqueles que foram chamados ao altar é uma necessidade premente e uma responsabilidade de todos nós, pois um sacerdote santo é capaz de iluminar e transformar a realidade de milhares de fiéis.

Muitas vezes, podemos nos perguntar qual é o sentido e a importância de a Igreja estipular datas específicas como esta para a mobilização do povo católico. Afinal, não deveríamos rezar pelos nossos padres todos os dias? Sem dúvida alguma, a oração perseverante deve ser o farol diário de cada cristão. No entanto, a sabedoria milenar da Santa Mãe Igreja compreende a nossa natureza humana, que tantas vezes se deixa engolir pela rotina frenética, pelos compromissos exaustivos e pelas urgências do tempo presente.

Estabelecer uma jornada mundial é um ato pedagógico e profético. As datas no nosso calendário litúrgico e pastoral funcionam como um grande sino que toca simultaneamente em todas as partes do mundo, despertando a consciência adormecida da comunidade. Quando uma data como a desta Jornada é celebrada, ocorre uma mobilização espiritual em massa: desde as pequenas capelas nas comunidades mais distantes e nas favelas da nossa cidade até as grandes basílicas e igrejas históricas, milhares de corações se unem em uma única prece.

Essa sinergia orante fortalece o Corpo Místico de Cristo, lembra aos leigos o seu papel ativo na sustentação espiritual de seus pastores e tira as nossas paróquias do isolamento, inserindo-as num grande mutirão de fé e solidariedade.

É com esse espírito de profunda comunhão que devemos olhar para a realidade do nosso clero nos dias de hoje. O padre é um homem retirado do meio do povo e colocado a serviço das coisas de Deus, mas ele não deixa de ser humano. Ele carrega consigo as mesmas fragilidades, as mesmas dores e, muitas vezes, as mesmas angústias que afligem qualquer um de nós.

Em uma metrópole desafiadora como o Rio de Janeiro, marcada por tantas belezas, mas também por tantas chagas sociais, violência e desigualdades, o sacerdote é cotidianamente convocado a ser um porto seguro. Ele é o cireneu que ajuda a carregar a cruz das famílias enlutadas, é o ouvinte incansável no confessionário, é o promotor da paz nas áreas de conflito e o pão repartido na Eucaristia.

Todo esse desgaste exige uma reserva espiritual imensa. Se o povo católico não se mobiliza para rezar, jejuar e oferecer sacrifícios pela santificação dos seus padres, corre-se o risco de deixá-los à mercê do desânimo ou do ativismo vazio. A santidade do clero é, portanto, um patrimônio da comunidade; uma paróquia que reza fervorosamente por seu pároco está, na verdade, garantindo a sua própria vitalidade espiritual.

Neste contexto histórico de 2026, a nossa oração ganha um contorno de profunda esperança e renovação, impulsionada pela liderança firme, corajosa e profética do nosso amado Santo Padre, o Papa Leão XIV. Desde que assumiu a Cátedra de Pedro, temos testemunhado o seu esforço incansável para purificar a Igreja e reconduzi-la à essência do Evangelho. O Papa Leão XIV tem sido uma voz inabalável a clamar por um clero que não se apegue aos privilégios mundanos ou às glórias efêmeras, mas que se configure inteiramente ao Cristo Servo.

 

Com uma caridade pastoral admirável e uma firmeza que nos recorda os grandes santos pastores da história, o Papa tem nos ensinado que a autoridade na Igreja só possui legitimidade quando lavamos os pés uns dos outros. Sua liderança tem desinstalado estruturas enrijecidas e nos convidado a uma “Igreja em saída”, onde o padre deve ter o olhar voltado para o céu na oração, mas os pés sujos do barro da caminhada junto ao seu povo nas periferias existenciais e geográficas.

Um dos aspectos mais belos e luminosos do pontificado do Papa Leão XIV, que toca diretamente o coração desta nossa Jornada em 2026, é a ênfase apaixonada que ele tem dado à beatificação de membros do clero diocesano e religioso. Nos últimos tempos, a Igreja tem elevado aos altares inúmeros sacerdotes que viveram a santidade de forma silenciosa, heroica e cotidiana. Não estamos falando apenas de grandes intelectuais ou fundadores de ordens mundiais, mas do padre de paróquia, do vigário dedicado, daquele que consumiu a sola do sapato visitando os doentes e que fez do confessionário o seu verdadeiro púlpito de misericórdia.

Ao promover a beatificação desses homens, o Papa Leão XIV não está apenas prestando uma homenagem póstuma, mas está enviando uma mensagem vigorosa a todos os seminaristas, diáconos e presbíteros do mundo inteiro: a santidade no ministério sacerdotal é possível, é atual e é a única resposta verdadeira para as crises do nosso tempo. O povo de Deus precisa desses modelos, dessas testemunhas de carne e osso que provam que a graça divina é mais forte do que a fraqueza humana.

Essas beatificações recentes servem como um poderoso motor de mobilização para o povo católico, pois nos fazem olhar para os nossos próprios padres com um olhar de esperança. Quando lemos a biografia de um sacerdote recém-beatificado por sua dedicação pastoral e pelo seu martírio silencioso da fidelidade diária, somos convidados a reconhecer que, nas nossas paróquias hoje, existem também homens justos e bons, lutando silenciosamente para serem fiéis a Cristo.

A Igreja nos pede que não sejamos juízes implacáveis dos defeitos dos nossos padres, mas intercessores incansáveis pela sua santificação. O amor do povo pelo seu pastor deve se traduzir em oração, em colaboração pastoral e em amizade fraterna. A verdadeira reforma da Igreja, como nos ensina o magistério de Leão XIV, não passa apenas por mudanças estruturais, mas pela conversão dos corações e pela santidade de seus ministros.

Faço um apelo afetuoso e veemente a todos nesta data tão significativa. Convido cada família, cada jovem, cada idoso e cada movimento pastoral a adotar espiritualmente um sacerdote da nossa Arquidiocese. Rezem por aquele padre que batizou seus filhos, que abençoou o seu matrimônio, que os visita na enfermidade ou que lhes oferece o perdão de Deus na absolvição sacramental.

Não se esqueçam de rezar fervorosamente também pelos nossos seminaristas do Seminário Arquidiocesano São José, para que sejam formados segundo o Coração de Cristo, e pelo nosso clero idoso, que já gastou a vida pelo Evangelho e hoje precisa do nosso amparo e gratidão.

Que o Sagrado Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, purifique e inflame o coração de todos os ministros ordenados. Ao celebrarmos a memória do Imaculado Coração de Maria no sábado, possamos colocar cada padre sob o manto protetor da Virgem Santíssima, a Mãe dos sacerdotes, para que Ela os defenda dos ataques do maligno e os guie sempre pelo caminho da paz, da mansidão e do amor incondicional ao rebanho. Que Deus abençoe a todos e multiplique em nossa Igreja as santas vocações! Que todos os padres recebam o abraço fraterno e a gratidão por gastarem suas vidas pela dilatação do Evangelho da Vida e da Esperança!

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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